Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Fahrenheit 451

"Por sorte, esquisitos como ela são raros. Sabemos como podar a maioria deles quando ainda são brotos, no começo. Não se pode construir uma casa sem pregos e madeira. Se você não quiser que se construa uma casa, esconda os pregos e a madeira. Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum. Deixe que ele se esqueça de que há uma coisa como a guerra. Se o governo é ineficiente, despótico e ávido por impostos, melhor que ele seja tudo isso do que as pessoas se preocuparem com isso. Paz, Montag. Promova concursos em que vençam as pessoas que se lembrarem da letra das canções mais populares ou dos nomes das capitais dos estados ou de quanto foi a safra de milho do ano anterior. Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com 'fatos' que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente 'brilhantes' quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia. Todo homem capaz de desmontar um telão de tevê e montá-lo novamente, e a maioria consegue, hoje em dia está mais feliz do que qualquer homem que tenta usar a régua de cálculo, medir e comparar o universo, que simplesmente não será medido ou comparado sem que o homem se sinta bestial e solitário. Eu sei porque já tentei. Para o inferno com isso! Portanto, que venham seus clubes e festas, seus acrobatas e mágicos, seus heróis, carros a jato, motogiroplanos, seu sexo e heroína, tudo o que tenha a ver com reflexo condicionado. Se a peça for ruim, se o filme não disser nada, estimulem-me com o teremim, com muito barulho. Pensarei que estou reagindo à peça, quando se trata apenas de uma reação tátil à vibração. Mas não me importo. Tudo que peço é um passatempo sólido."




BRADBURY, Ray. Fahrenheit 451. Trad. Cid Knipel. . 2ª ed. São Paulo: Globo, 2012. pp. 84-5

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Sem o sexo

Sem o sexo haveria muito menos coisas a fazer. Não teríamos joalherias, não bordaríamos rendas, não serviríamos a comida em travessas de prata, não ergueríamos quartos de hotel em pontões sobre lagoas tropicais. A maior parte da economia deixa de fazer sentido sem o sexo como força motora ou agente organizador. As energias dos pregões, os vestiários com folhas de ouro da Dior na Bond Street, os encontros no Museu de Arte Moderna, os bacalhaus negros servidos no terraço dos restaurantes japoneses – para que serve tudo isso senão para ajudar nos processos que acabarão por levar duas pessoas a fazer amor num quarto escuro enquanto sirenes gritam na rua abaixo?

Allain de Botton. Como pensar mais sobre sexo. Trad. Cristina Paixão Lopes. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. p. 141.




terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A primeira experiência de amor



Para a maioria de nós, a primeira experiência de amor, mesmo quando ele não dá certo – talvez especialmente quando ele não dá certo – promete que ali está a coisa que valida, que justifica a vida. E embora os anos subsequentes possam modificar essa visão, até que alguns de nós a abandone completamente, quando o amor acontece pela primeira vez, não há nada que se compare a ele, há? De acordo?

Barnes, Julian. O sentido de um fim. Trad. Léa Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Rocco, 2012. p. 60





quarta-feira, 11 de julho de 2012

Borges e o romance


Mesmo assim, apesar de sua universalidade formal e da vertiginosa amplitude de seu leque de alusões, a estrutura da arte de Borges tem graves lacunas. Somente uma vez, no conto “Emma Zunz”, Borges criou uma mulher plausível. Em toda a obra restante, as mulheres são os objetos indistintos de fantasias ou recordações masculinas. Mesmo entre os homens, as linhas de força imaginativa numa ficção de Borges são extremamente simplificadas. (…) Quando aparece uma terceira pessoa, será quase invariavelmente, obliquamente, a alusão a uma presença, uma lembrança ou um rápido vislumbre instável na retina. O espaço de ação onde se move uma figura de Borges é mítico, nunca social. Quando se introduz um local, uma posição ou uma circunstância histórica, aparece em toques soltos, exatamente como num sonho. (…) São essas lacunas, essas intensas especializações na consciência, penso eu, que explicam as desconfianças de Borges em relação ao romance. Ele volta ao tema com frequência. Afirma que um autor obrigado pela visão fraca a compor mentalmente e, por assim dizer, de um só impulso, deve se restringir a narrativas muito breves. E é verdade que as primeiras “Ficciones” importantes se seguem ao grave acidente que Borges sofreu em dezembro de 1938. Ele também julga que o romance, como o poema épico que o precedeu, é uma forma transitória: “O romance é uma forma que pode passar, que certamente passará, mas não creio que o conto passará […] Ele é muito mais antigo”. É o contador de histórias na estrada, o skald, o narrador dos pampas, homens cuja cegueira é muitas vezes uma declaração do brilho e da riqueza de vida que viveram, que encarnam a noção de escritor de Borges. Homero é invocado amiúde como ícone protetor. Claro. Mas é da mesma maneira provável que o romance represente precisamente as principais dimensões faltantes em Borges. A presença feminina bem construída, as relações das mulheres com os homens fazem parte da essência da ficção plena. (…) Há muito de simples engenharia num romance.

STEINER, George. “Tigres no espelho” in: Tigres no espelho e outros textos da revista New Yorker. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Biblioteca Azul, 2012. pp. 213-214.



terça-feira, 8 de maio de 2012

O dia em que Emília encontrou-se com Hitler


O Visconde foi andando de sala em sala. Uma delas parecia a do Grande Ditador. — Era aqui — disse Emília — que ele mandava e desmandava. Agora, com certeza, anda escondido em algum buraquinho.
— Mas como poderemos reconhecê-lo?
— Pelo bigode. Nada mais fácil.
Com um pauzinho o Visconde começou a tirar os arianos escondidos nas frestas ou debaixo dos móveis. De sob a secretária do Grande Ditador saíram vários, evidentemente generais e homens de governo. Um deles tinha bigodinho.
A entrevista de Emília com o Grande Ditador dava um livro de mil páginas, mas temos de resumir. A pedido dela o Visconde ergueu-o até a altura da janelinha para que pudesse ouvir o seu discurso.
— Meu senhor — disse ela —, tenho a honra de apresentar a Vossa Excelência o Visconde de Sabugosa, o milho falante lá do sítio de Dona Benta. E também me apresento a mim mesma — frau Emília, Marquesa von Rabicó. Viemos dar uma vista de olhos pelas Europas e o acaso nos largou nesta Alemanha de Vossa Excelência. Mas estou admirada do que vejo. Esperei encontrar o grande arsenal das ditaduras dando tiros de canhão e espirrando fogo, e o que no próprio palácio do Grande Ditador eu vejo são montinhos de farda vazios e arianos insetiformes, tímidos, nus, escondidos pelos cantos e vãos e frestas. Que foi que aconteceu, Excelência?
(...)
O Grande Ditador animou-se e quis falar. Emília o deteve com um gesto.
— Não diga nada, meu senhor. Já houve falação demais. Quem fala agora sou eu. Quero todos muito direitinhos e humildes. Esta semana de “redução” não passa de uma advertência que o tal “alguém” faz ao mundo. Compreende? 
Assim terminou Emília o seu sermão ao chefe do Eixo.


Lobato, Monteiro. A chave do tamanho. São Paulo: Globo, 2008. pp. 100-102


terça-feira, 24 de abril de 2012

Visita cruel


Ela segura as mãos dele. Conforme os dois vão se movendo juntos, Rolph sente a vergonha desaparecer como por milagre, como se estivesse virando adulto bem ali na pista, tornando-se um menino que dança com meninas feito a irmã. Charlie também sente a mesma coisa. Na verdade, essa lembrança é aquela que irá revisitar vezes sem conta, pelo resto da vida, muito depois de Rolph ter se matado com um tiro na cabeça na casa do pai aos 28 anos de idade: seu irmão ainda menino, com os cabelos colados à cabeça, os olhos brilhando, aprendendo timidamente a dançar. Mas a mulher que se lembrará disso não será Charlie; depois que Rolph morrer, ela recomeçará a usar seu nome de verdade – Charlene –, desassociando-se para sempre da menina que dançou com o irmão na África. Charlene vai cortar os cabelos curtos e estudar direito. Quando tiver um filho, vai querer batizá-lo de Rolph, mas seus pais ainda estarão traumatizados demais. Ela então chamará o filho assim na intimidade, apenas em pensamento, e anos depois estará em pé com a mãe junto a um grupo de pais torcedores ao lado de uma quadra esportiva vendo-o jogar e olhar para o céu com uma expressão sonhadora em seu rosto de menino.    p. 85.



Egan, Jennifer. A visita cruel do tempo. trad. Fernanda Abreu. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011.


 


terça-feira, 6 de setembro de 2011

Doutrina das cores

Por mais que pensem de modo diferente, observadores da natureza dignos de crédito concordam que tudo o que aparece, tudo o que se manifesta como fenômeno, deve indicar ou expor uma cisão originária, que pode ser unificada, ou por uma unidade primordial, que pode ser cindida. Cindir o que está unido, unificar o que está cindido é a vida da natureza, eterna sístole e diástole, eterna síncrese e diacrise, inspiração e expiração do mundo, no qual vivemos, criamos e somos.


GOETHE, Johann Wolfgang Von. Doutrina das Cores. Trad. Marco Giannotti. São Paulo: Nova Alexandria, 1993. p. 132


quinta-feira, 21 de julho de 2011

Conversa com Andrés Neuman


Na última Feira Literária Internacional de Paraty, os escritores Andrés Neuman e Michael Sledge foram os convidados para compor a mesa intitulada 'Viagens Literárias'. O primeiro, argentino radicado na Espanha, foi falar de seu livro O viajante do século, seu único título lançado no Brasil até agora. 

* * *

Na saída do evento, consegui trocar algumas palavras com Andrés. Pedi para que ele assinasse meu exemplar de Bariloche, uma novela curta sobre um lixeiro solitário que tem como hobby montar quebra-cabeças e suas relações com o colega de trabalho e melhor amigo. E com a mulher deste.

"Estão vendendo Bariloche nesta livraria aqui?", ele perguntou, apontando para a livraria oficial do evento. "Não, esse eu comprei faz tempo" "E como você conseguiu este livro no Brasil?" "Importei, pela internet", e fui explicando para ele sobre a aquisição e leitura de Bariloche, livro inédito no Brasil, lançado na Espanha pela tradicional Anagrama. "Sou muito fã de Bariloche", eu disse, "É um livro muito lírico". Ele devolveu com um sorriso: "A intenção era essa, fazer um livro ao mesmo tempo lírico e sórdido. Como é seu nome?". 

Enquanto ele assinava meu livro, perguntei: "Andrés, você chegou a conhecer o Bolaño?"; fez cara de surpreso e respondeu: "Sim, conheci! Era um homem muito... sarcástico!" "E ele tinha aquela voz de fumante?" (olha só, com tanta coisa para perguntar, na hora me veio isso, a voz de fumante do cara que escreveu 2666). Outro sorriso: "Sim, uma voz grave, pois fumava muito. Era uma grande presença, muito sarcástico, bom de conversa, com muito assunto" "Um homem muito grave, deve ter sido" "Não, Lucas, nem tão grave, até que bem humorado - e sarcástico", fez uma pausa, "e culto, um homem muito culto".

Ele terminou de assinar, conferiu a página de créditos, ensaiei perguntar sobre seu editor, Jorge Herralde, também figura da minha admiração. Perguntou sobre meu emprego, com que trabalhava, e disse: suspeitei que trabalhasse com livros, apertou minha mão e desejou-me sorte.



segunda-feira, 18 de julho de 2011

The Canary Murder Case II

É terrível, minha tia me convida para o seu aniversário, compro de presente um canário pra ela, chego lá não tem ninguém, meu calendário é defeituoso, na volta o canário canta aos montes no bonde, os passageiros entram em estado de cólera, tiro o bilhete do animal para que o respeitem, ao abaixar-me dou com a gaiola na cabeça de uma senhora que me mostra os dentes, chego em casa banhado de alpiste, minha mulher fugiu com o escrivão, caio duro no saguão e esmago o canário, os vizinhos chamam a ambulância e o levam em uma maca, fiquei a noite inteira jogado no saguão comendo o alpiste e ouvindo o telefone na sala, deve ser minha tia ligando, e liga pra que eu não me esqueça do seu aniversário, ela sempre conta com o meu presente, minha pobre tia.


In: CORTAZAR, Julio. Ultimo Round. 3ª ed. Madrid: Siglo Veintiuno Editores, 1972.. (tradução nossa).


terça-feira, 5 de julho de 2011

Bariloche

Penso que melhor se forma uma família para tentar matar a orfandade de que cada um sofre desde que nasce. Por isso me sentia tão só quando via como mamãe levava sopa e pão ao velho e ele não a olhava nos olhos, muito concentrado na chaminé como que imaginando sua própria fogueira, tentando se acostumar às chamas ainda que fosse com os olhos que negava à mamãe. Todos nos sentíamos muito sós.

(...)

Neuman, Andrés. Bariloche. Barcelona: Anagrama, 1999. Colección Compactos. p. 113. (tradução nossa)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Pergunta

No começo do conto "O Burrinho Pedrês", primeiro do livro Sagarana, de Guimarães Rosa, quando o narrador conta que "a estória de um burrinho, como a historia de um homem grande, é bem dada no resumo de um só dia de sua vida", estaria ele dialogando com um dos motivos principais da história de Ulisses, de James Joyce, passada num só dia da vida de Leopold Bloom?

sexta-feira, 11 de março de 2011

A Biblioteca de Babel

(...)

Não me parece inverossímil que em alguma estante do universo haja um livro total; rogo aos deuses ignorados que um homem - só um, ainda que seja, há milhares de anos! - haja o examinado e lido. Se a honra e a sabedoria e a felicidade não são para mim, que sejam para outros. Que o céu exista, ainda que meu lugar seja o inferno. Que eu seja ultrajado e aniquilado, mas que em um instante, em um ser, Tu, enorme Biblioteca, se justifique.


(...)

As epidemias, as discórdias heréticas, as peregrinações que inevitavelmente se degeneram em bandoleirismo, dizimaram a população. Creio ter mencionado os suicídios, a cada ano mais frequentes. Talvez a velhice e o temor me enganem, mas suspeito que a espécie humana - a única - está por extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvil, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.



BORGES, Jorge Luis. "La Biblioteca de Babel" in: Ficciones. Buenos Aires: Emecé Editores, 2005. p. 105-120 (tradução nossa)

"Passage Choiseul" (1990), Erik Desmazières.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Telemorfose

"Toda a nossa realidade tornou-se experimental." p.19

"É aí, quanto tudo se dá a ver (como em Big Brother, os reality shows, etc.), que se percebe que não há mais nada a ver. É o espelho da banalidade, do grau zero, onde se faz a prova, contrariamente a todos os objetos, da desaparição do outro, e talvez mesmo do fato de que o ser humano não é fundamentalmente um ser social." p.20

"É este o objetivo mais claro da operação: a servilidade das vítimas, mas a servilidade voluntária, a das vítimas que gozam com o mal que se lhes faz, com a vergonha que se lhes impõe." p. 24-5

" (...) é no recalcamento que a sexualidade ganhou essa autoridade e essa aura de atrator estranho - manifestada, ela perde essa qualidade potencial" p. 27

"Pode ser talvez uma estratégia da mídia oferecer espetáculos mais nulos do que a realidade - hiper-reais em sua debilidade, e dando aos espectadores uma possibilidade diferencial de satisfação." p.38

"Em vista  (...) da adesão entusiástica a essa encenação da servidão experimental, pode-se adivinhar que o exercício da liberdade não é certamente um dado de base da antropologia e que o homem, se alguma vez a exerceu, não pára de se desvencilhar dela em favor de técnicas mais animais de automatismo coletivo." p. 47

"escancaramento para o abismo do corpo inteiro (...) não é também de longe sequer da história do califa que, após o strip-tease da dançarina, mandou esfolá-la viva, sempre para saber mais." p.52

"O século vinte terá visto todo tipo de crime - Auschwitz, Hiroshima, genocídios -, mas o único verdadeiro crime perfeito é, nos termos de Heidegger, "a segunda queda do homem, a queda na banalidade". p.58


BAUDRILLARD, Jean. Telemorfose. Trad.: Muniz Sodré. Rio de Janeiro: Mauad, 2004.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Fotografia

Já viste trabalho em fotografia? Revelar uma chapa? Chapa é uma placa de vidro recoberto duma leve camada de gelatina sensibilizada, de aparência branca e opaca. Pões-na, porém, dentro do banho revelador e a imagem que existia misteriosamente oculta dentro da gelatina delineia-se aos poucos, vai ganhando contornos e nitidez, até de todo se revelar com perfeição. Tu foste para mim o que o revelador é para a chapa. Donde parecia nada existir que não fosse aridez e revolta, e orgulho e pessimismo e tédio, tu arrancaste mil qualidades preciosas e inestimáveis – amor, ternura, otimismo, alegria, bondade. Agora vejo que tudo isso existia em mim latentemente e só esperava a forte simpatia duma criatura como tu para se expandir. E sou-te grato, imensamente, por isso.

Trecho da carta de Monteiro Lobato à sua esposa, D. Maria da Pureza Natividade, em 1907.


in: Lobato, Monteiro. Cartas de amor. 1ª ed. São Paulo: Globo, 2011. p. 91

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O Visconde partido ao meio

Às vezes alguém se julga incompleto e é apenas jovem.

Ao término da leitura de O Visconde partido ao meio, lamentei tê-lo lido neste momento. O livro, uma das obras mais conhecidas de Ítalo Calvino, é uma alegoria sobre temas como a moral, a polarização, a personalidade, as descobertas da juventude. E é por isso que lamentei que a leitura fosse feita neste momento da vida. Se estabelecermos o conceito de livro juvenil como aquele que é eleito pelo jovem como um bom livro, este seria um livro eleito da minha juventude.
            Isto porque é uma história recheada de descobertas. O narrador é um garoto que conta de perto a vida de seu tio, um visconde atingido por uma bala de canhão, que se divide em dois pedaços. As duas pessoas em que ele se transformou saem por aí praticando o bem e o mal, destruindo e construindo, uma metade de bom coração, a outra de um ódio infinito.
            As questões que este livro me trouxe são aquelas que me incomodavam em algum momento de descobertas: que ninguém é inteiramente bom ou mal, que a bondade excessiva é tão prejudicial quanto a maldade, e que só somos realmente completos quando reunimos o bem e o mal, o medo e a euforia, quando unimos as duas metades do tio visconde.
            Mas talvez eu não tivesse conseguido ler este livro na época em que essas questões surgiam pra mim. Senti dificuldades pra engrenar no livro, e a leitura só começou a fluir na segunda metade do livro, a metade que eu considerei como boa. Talvez seja um problema na tradução: uma bela história em linguagem truncada, de vocabulário difícil praquele leitor que eu era aos 13, 14 anos. Mas uma bela fantasia, um cenário mágico, fantástico, com todos os ingredientes pra fisgar aquele eu que eu era.

Ah, Pamela, esta é a virtude de um ser partido ao meio: entender o sofrimento de cada pessoa e coisa do mundo diante da própria imperfeição. Eu estava inteiro e não entendia, movimentava-me surdo e incomunicável entre os sofrimentos e as feridas disseminados por todos os lados. Pamela, não sou apenas eu um ser dividido e dilacerado, mas você também o é, assim como todo mundo. Portanto, possuo agora uma fraternidade que antes, inteiro, não conhecia: aquela com todas as mutilações e todas as carências do mundo.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Sobre a Glória

Não há exercício intelectual que não resulte em fim inútil. Uma doutrina é no início uma descrição verossímil do universo; passam-se os anos e é um simples capítulo – quando não um parágrafo ou um nome – da história da filosofia. Na literatura, essa caducidade final é ainda mais notória. O Quixote – disse-me Menard – foi antes de tudo um livro agradável; agora é uma ocasião de brindes patrióticos, de soberba gramatical, de obscenas edições de luxo. A glória é uma incompreensão e talvez a pior.

 BORGES, Jorge Luis. "Pierre Menard, autor del Quijote" in: Ficciones. Buenos Aires: La Nación, 1995. p. 68. (grifo nosso, tradução nossa).

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Chesterton

"Ainda que os habitantes nada tivessem de 'artistas', tudo ali era artístico. Aquele rapaz de cabelos compridos e vermelhos e de feições impudentes não havia de ser necessàriamente um poeta, mas era irrefutàvelmente um poema (...). Por isso, e sòmente por isso, o lugar merecia estudos pertinentes e demorados; tinha de ser examinado menos como uma oficina de artistas do que como uma delicada, pôsto que consumada, obra de arte."


in: Chesterton, G.K. O homem que foi quinta-feira. Trad. José Laurênio de Melo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1958. pp 9-10.

dica da @keerolz

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Bastão de Simetria


Os fenícios não eram conhecidos por serem grandes guerreiros, na verdade eram melhores artesãos que guerreiros. Muita coisa leva a crer que os fenícios legaram à história dos povos e dos artefatos o Bastão de Simetria.
     Legado aos gregos ou aos macedônios, talvez com passagem pela ibéria, com certa passagem pelo oriente, com registros no sânscrito, o certo é que o Bastão de Simetria pertence, em análise última, à toda humanidade, ou, conforme as interpretações dos médio-orientais, a humanidade pertença aos artefatos mágicos).
     O Bastão é uma peça de madeira maciça, de tamanho e diâmetro em proporção áurea e de cor avermelhada. O atributo deste artefato é não permitir os movimentos do mais hábil manejador, e de igual maneira não permite o manejo do inábil.
     O guerreiro tem sua vontade anulada e seus gestos não fazem efeito, a peça é conduzida somente nas direções percebidas pelo universo, pela natureza ou pelo próprio bastão. De fato, a peça é quem conduz o manejador, em golpes de sacrifício, em leves acrobacias, sempre de maneira inédita e inequívoca. As mãos do soldado que a conduz são conduzidas, tendo este que adaptar seu corpo, seus gostos e preferências, sua mão de destreza aos movimentos orientados assim que o objeto é tocado, desencadeando seus movimentos lúcidos e simétricos.
     Dizem que estes movimentos já estão previstos em algum lugar, e que o Bastão de Simetria, perfeito na sua performance, reproduz o ordenamento divino da natureza e do cosmos, o que o tornou um oráculo para alguns povos do Mediterrâneo. Já foi considerado como umas das únicas maneiras de compreender A Divina Totalidade (o Tao dos chineses), e observá-lo ou tocá-lo poderia servir como cura a qualquer convalescência.
     É fato notório que alguns reis já tentaram utilizar tal artefato maravilhoso nas suas mais tenebrosas guerras, na certeza de saírem sempre vencedores, bastando para tanto ter a posse de um objeto que previsse a marcha da imensidão sideral. O que não perceberam de imediato foi a inutilidade do Bastão em ferir o adversário nas guerras, pois seus desígnios não previam qualquer movimento alheio aos seus princípios irracionais e secretos, o que na maioria das vezes não previa o ato violento. Logo os povos notaram que, em vez da guerra, o Bastão de Simetria servia muito mais para a dança, e passaram a incluí-lo apenas nos seus rituais do êxtase.


[Retirado de Fabra, António. "Artefactos blancos de la antiguidad". In: Encyclopaedia de los Artefactos y de la Magia. Madri: Mercador, 1912. p.82 - Tradução nossa]

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Estudo de Filologia

Possivelmente a decifração do que muitos entendem como o mistério bíblico (arcana para alguns, cabala para outros), subjaz na leitura das linhas-viúvas do códice original editado por Gutenberg no século XV.

A estrutura cônscia das linhas finais da página no codex original da Escritura pode ter uma relação direta com seu significado mais oculto, aquele buscado por judeus & católicos, escritores & teólogos. & o fato de os editores modernos evitarem tal recurso nos livros comerciais escamoteia um interesse maligno por esconder a verdade da massa. Isto nos remonta, como é de se supor, à Maçonaria, à Opus Dei, ao Dan Brown e a Dom Paulo Evaristo Arns.

Corrobora com esta leitura o item f do levantamento feito por Jorge Luís Borges do espólio de Pierre Menard (Ficciones, 1941).

Mas estas revelações não são dignas de veicularem num blog. A pós-modernidade tirou a credibilidade da informação, e com isto nossa capacidade de discernir a verdade da mentira, posto que a própria noção de verdade se perdeu, destoante do espírito do objeto de nossa análise, o incunábulo do século XV.

Se alguém encontrar a edição de Gutenberg num sebo por aí, me avise. Preciso verificar a informação na fonte, in loco.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

O mundo animal

A boca de um cão tem menos bactérias e germes do que a boca
de um humano.

O gato possui 24 bigodes, agrupados de 4 em 4. Seus bigodes
são utilizadospara mensurar as distâncias.

O pescoço da girafa tem somente sete ossos, o mesmo número de
ossos do pescoço de um humano

O pato é um dos poucos animais que adaptou-se aos três meios
de locomoção: meio acquático, meio aéreo e meio terrestre.

Os peixes crescem e trocam de dentes durante toda a vida, e têm memória de apenas 3 minutos.

Quando o coelho está com sono ele cai de repente e adormece.

As borboletas degustam com as patas, e vivem em média duas semanas.

O pingüim é uma ave marítma, excelente nadadora e adaptada
para a vida no mar. Quando estão em terra têm certa dificuldade para se deslocar, por isso quando estão na neve ou no gelo eles deslizam de barriga.

O gorila é o maior macaco do mundo, e passa a maior parte do
dia comendo e descansando.


[do Mundo Animal Ilustrado.Lisboa: Antares, 1986. Coleção Enciclopédia dos infantes]

Pra provar que a gente tem que ler de tudo nesta vida.