domingo, 23 de outubro de 2011

Machismo

“(...) a verdade é que as mulheres sempre tiveram um poder desmesurado sobre os homens, e muitos de bom grado prefeririam o inferno e todos os seus diabões a passar de novo pelo que lhes fez passar alguma mulher. O próprio machismo se voltou contra os machões, tornou o homem prisioneiro dele mesmo, obrigado a não chorar, não brochar, não afrouxar, não pedir penico. Aquilo que, numa primeira visão, oprimia somente as mulheres oprimia mais os homens, que até hoje vivem cercados por um cortejo de mulheres fantasmagóricas, reais e imaginárias, sempre prontas a esqueartejá-los, se o pegarem fora desses padrões. E não adianta psicamálise, nem ficar arrotando liberações. Eles têm medo, eme-é-dê-ó, cagam-se de medo. Medo, teu nome é macho, não disse o Bardo, mas digo eu. Quanta mulher não comeu o homem que quis, apenas porque ele não podia recusar uma mulher? Uma mulher se tranca com um homem num quarto e diz que ele vai comer ela. Ele tem que comer, a não ser que ela seja o corcunda de Nôtre Dame. Até mesmo recusar uma mulher obedece a normas, porque é estabelecido o direito de ela se ofender, se a recusa for feita fora das normas. Por exemplo, ‘você é feia, e eu não vou lhe comer’, não se diz uma coisa dessas a uma mulher. Para não fazer uma inimiga mortal, o recusador tem que ser artista. Já a mulher pode recusar perfeitamente e mesmo nos piores termos possíveis — ‘você nunca, tá?’ —, as mulheres sabem do que eu estou falando, sou uma feminista esclarecida-progressista, sou um grande homem fêmea.”

RIBEIRO, João Ubaldo. A casa dos budas ditosos. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. p. 67 (Col. Plenos Pecados)



terça-feira, 11 de outubro de 2011

Programação da Semana de Ciências Sociais - FSA

Quando? 17 a 22/10
Onde? Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras - Centro Universitário Fundação Santo André.
Av. Príncipe de Gales, 1485 - Santo André - SP

Programação:

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Encontro casual



A condição mortal implica sempre uma divisão, um dilaceramento e um encadeamento de eventos trágicos. Essa duplicidade aparece na sua versão mais nítida no caso de Édipo: inocente e culpado; sábio e louco; poderoso e miserável. Nenhum de seus atos foi intencional, mas ele é o culpado de todos. (...) A condição de Édipo é extremamente significativa: a desgraça primordial do homem é ter nascido; sua culpa fundamental é por existir. A partir daí, como administrar o destino?

Franklin Leopoldo e Silva. Felicidade: dos filósofos pré-socráticos aos contemporâneos. São Paulo: Editora Claridade, 2006. p. 17.


No primeiro volume de Parerga und Paralipomena reli que todos os fatos que podem ocorrer a um homem, desde o instante de seu nascimento até o de sua morte, foram prefixados por ele. Assim, toda negligência é deliberada, todo casual encontro, uma hora marcada, toda humilhação, uma penitência, todo fracasso, uma misteriosa vitória, toda morte, um suicídio. Não há consolo mais hábil que o pensamento de que escolhemos nossas desgraças; essa teleologia individual nos revela uma ordem secreta e prodigiosamente nos confunde com a divindade.

Jorge Luis Borges. "Deutsches Requiem". In: O Aleph. São Paulo: Editora Globo, 1999. p. 48.



segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Carta de Mário a Carlos

Trecho de carta de Mário de Andrade a Carlos Drummond, sobre Anatole France (um dos escritores favoritos da juventude do escritor mineiro):


Anatole ensinou outra coisa de que você se esqueceu: ensinou a gente a ter vergonha das atitudes francas, práticas, vitais. Anatole é uma decadência, é o fim duma civilização que morreu por lei fatal e histórica. Não podia ir mais pra diante. Tem tudo que é decadência nele. Perfeição formal. Pessimismo diletante. Bondade fingida porque é desprezo, desdém ou indiferença. Dúvida passiva porque não é aquela dúvida que engendra a curiosidade e a pesquisa, mas a que pergunta: será? irônica e cruza os braços. E o que não é menos pior: é literato puro. Fez literatura e nada mais. [...] escangalhou os pobres moços fazendo deles uns gastos, uns frouxos, sem atitudes, sem coragem, duvidando se vale a pena qualquer coisa, duvidando da felicidade, duvidando do amor, duvidando da fé, duvidando da esperança, sem esperança nenhuma, amargos, inadaptados, horrorosos. Isso é que esse filho da puta fez.



SANTIAGO, Silviano. "Mário, Oswald e Carlos, intérpretes do Brasil". Alceu, Revista de Cumunicação, Cultura e Política, v. 5, n. 10, jan./jun.2005


terça-feira, 6 de setembro de 2011

Doutrina das cores

Por mais que pensem de modo diferente, observadores da natureza dignos de crédito concordam que tudo o que aparece, tudo o que se manifesta como fenômeno, deve indicar ou expor uma cisão originária, que pode ser unificada, ou por uma unidade primordial, que pode ser cindida. Cindir o que está unido, unificar o que está cindido é a vida da natureza, eterna sístole e diástole, eterna síncrese e diacrise, inspiração e expiração do mundo, no qual vivemos, criamos e somos.


GOETHE, Johann Wolfgang Von. Doutrina das Cores. Trad. Marco Giannotti. São Paulo: Nova Alexandria, 1993. p. 132


quinta-feira, 21 de julho de 2011

Conversa com Andrés Neuman


Na última Feira Literária Internacional de Paraty, os escritores Andrés Neuman e Michael Sledge foram os convidados para compor a mesa intitulada 'Viagens Literárias'. O primeiro, argentino radicado na Espanha, foi falar de seu livro O viajante do século, seu único título lançado no Brasil até agora. 

* * *

Na saída do evento, consegui trocar algumas palavras com Andrés. Pedi para que ele assinasse meu exemplar de Bariloche, uma novela curta sobre um lixeiro solitário que tem como hobby montar quebra-cabeças e suas relações com o colega de trabalho e melhor amigo. E com a mulher deste.

"Estão vendendo Bariloche nesta livraria aqui?", ele perguntou, apontando para a livraria oficial do evento. "Não, esse eu comprei faz tempo" "E como você conseguiu este livro no Brasil?" "Importei, pela internet", e fui explicando para ele sobre a aquisição e leitura de Bariloche, livro inédito no Brasil, lançado na Espanha pela tradicional Anagrama. "Sou muito fã de Bariloche", eu disse, "É um livro muito lírico". Ele devolveu com um sorriso: "A intenção era essa, fazer um livro ao mesmo tempo lírico e sórdido. Como é seu nome?". 

Enquanto ele assinava meu livro, perguntei: "Andrés, você chegou a conhecer o Bolaño?"; fez cara de surpreso e respondeu: "Sim, conheci! Era um homem muito... sarcástico!" "E ele tinha aquela voz de fumante?" (olha só, com tanta coisa para perguntar, na hora me veio isso, a voz de fumante do cara que escreveu 2666). Outro sorriso: "Sim, uma voz grave, pois fumava muito. Era uma grande presença, muito sarcástico, bom de conversa, com muito assunto" "Um homem muito grave, deve ter sido" "Não, Lucas, nem tão grave, até que bem humorado - e sarcástico", fez uma pausa, "e culto, um homem muito culto".

Ele terminou de assinar, conferiu a página de créditos, ensaiei perguntar sobre seu editor, Jorge Herralde, também figura da minha admiração. Perguntou sobre meu emprego, com que trabalhava, e disse: suspeitei que trabalhasse com livros, apertou minha mão e desejou-me sorte.



segunda-feira, 18 de julho de 2011

The Canary Murder Case II

É terrível, minha tia me convida para o seu aniversário, compro de presente um canário pra ela, chego lá não tem ninguém, meu calendário é defeituoso, na volta o canário canta aos montes no bonde, os passageiros entram em estado de cólera, tiro o bilhete do animal para que o respeitem, ao abaixar-me dou com a gaiola na cabeça de uma senhora que me mostra os dentes, chego em casa banhado de alpiste, minha mulher fugiu com o escrivão, caio duro no saguão e esmago o canário, os vizinhos chamam a ambulância e o levam em uma maca, fiquei a noite inteira jogado no saguão comendo o alpiste e ouvindo o telefone na sala, deve ser minha tia ligando, e liga pra que eu não me esqueça do seu aniversário, ela sempre conta com o meu presente, minha pobre tia.


In: CORTAZAR, Julio. Ultimo Round. 3ª ed. Madrid: Siglo Veintiuno Editores, 1972.. (tradução nossa).


terça-feira, 5 de julho de 2011

Bariloche

Penso que melhor se forma uma família para tentar matar a orfandade de que cada um sofre desde que nasce. Por isso me sentia tão só quando via como mamãe levava sopa e pão ao velho e ele não a olhava nos olhos, muito concentrado na chaminé como que imaginando sua própria fogueira, tentando se acostumar às chamas ainda que fosse com os olhos que negava à mamãe. Todos nos sentíamos muito sós.

(...)

Neuman, Andrés. Bariloche. Barcelona: Anagrama, 1999. Colección Compactos. p. 113. (tradução nossa)