sexta-feira, 17 de julho de 2015

Janaína


Janaína vive no rio,
vive no açude,
vive no mar.
Lembrou-se de vir passear:
nas ôndias passou dendê.
As ôndias se acomodaram.
Cavalo-marinho veio
para ela se amontar.
No cavalo se amontou
galopando descuidada,
acordando os afogados,
dando adeus à maré grande.
Botando nome nos peixes,
ouvindo a fala dos búzios.
No ventre de Janaína
as escamas estão brilhando.
Nos olhos de Janaína,
na cauda de Janaína
tem cem doninhas pulando.
Nos peitos de Janaina
tem dois langanhos babando.
Se Janaína sorri
as ôndias ficam banzeiras.
Se Janaína está triste
o mar começa a espumar,
a pegar gente na praia
pra Janaína afundar.
– Janaína dá licença
que eu me afogue no seu mar?

Jorge de Lima. "Janaína" in: Antologia Poética. SP: Cosac Naify, 2014. pp.108-9



"Mermaids?" Ayla asked in shock. "But there's no such thing." "They're quite real all right," Sam countered.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Memórias, sonhos, reflexões I

"Em geral o homem atribui grande importância aos laços afetivos. Ora, estes encerram sempre projeções que é preciso retirar e recuperar para chegar ao si-mesmo e à objetividade. As relações afetivas são relações de desejo e de exigências, carregadas de constrangimento e servidão: espera-se sempre alguma coisa do outro, motivo pelo qual este e nós mesmos perdemos a liberdade."

Carl Gustav Jung. Memórias, sonhos, reflexões. (perdi a página, um dia eu acho)



  


Ódio eterno ao futebol moderno

É através das manifestações da massa pelos desportos da massa que uma via de transformação dá-se a conhecer. Quem dirá que um simples avanço no campo da moral esportiva não pode dar ensejo a toda uma revolução dos costumes, como a inévitável enxurrada de uma represa causada por uma rachadura na barragem?


quarta-feira, 15 de julho de 2015

Jean Valjean e o crime

"Jean Valjean é a personagem principal do livro Os Miseráveis, de Victor Hugo. Sua história é bastante trágica. Perde os dois pais ainda criança, sendo criado pela irmã. Quando ela fica viúva, com sete filhos para criar, ele começa a ajudá-la. Um inverno, porém, ele não consegue emprego. Desesperado, rouba um pão. É pego e condenado a cinco anos de trabalhos forçados, que, acrescidos de diversas fugas, tornam-se dezenove. Aos poucos ele vai percebendo que quem cometeu um crime não foi ele, foi a sociedade, pois o prejuízo que causou foi ínfimo em comparação ao que sofreu.
É expulso de todos os lugares, pelo simples fato de ser um forçado. O único que o abriga é Don Bienvenu, bispo de Digne. Jean Valjean rouba-lhe os talheres e foge no meio da noite. Porém é pego pelos policiais e levado à casa do bispo. Don Bienvenu, ao contrário do esperado, diz aos policiais que lhe dera os talheres, e lhe pergunta por que não levara os castiçais também. Tamanha bondade vinda de um ser humano faz Jean Valjean repensar sua posição em relação aos homens e à sociedade." (Wikipedia)


terça-feira, 14 de julho de 2015

Chesterton

"Ainda que os habitantes nada tivessem de 'artistas', tudo ali era artístico. Aquele rapaz de cabelos compridos e vermelhos e de feições impudentes não havia de ser necessàriamente um poeta, mas era irrefutàvelmente um poema (...). Por isso, e sòmente por isso, o lugar merecia estudos pertinentes e demorados; tinha de ser examinado menos como uma oficina de artistas do que como uma delicada, pôsto que consumada, obra de arte."


in: CHESTERTON, G.K. O homem que foi quinta-feira. Trad. José Laurênio de Mello. 2ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1958. pp. 9-10



Platão

Logo, o homem justo revela-se-nos, ao que parece, como uma espécie de ladrão, e isso é provável que o tenhas aprendido em Homero. Efectivamente, ele tem grande estima pelo avô materno de Ulisses, Autólico, e afirma que ele excedia todos os homens em roubas e em fazer juras. Parece, pois, que a justiça, segundo a tua opinião, segundo a de Homero e a de Simónides, é uma espécie de arte de furtar, mas para vantagem de amigos e dano de inimigos. Não era isso que dizias?


Platão. A República. Livro I. Trad. 8ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996. p.15

Ridha

Sobre as possibilidades da leitura, o depoimento de Ridha, 22 anos, vive na França, de pais argelinos:

"Quando eu era pequeno, os livros representavam tantas alternativas, tantas possibilidades, saídas, soluções para problemas, e tantas pessoas e individualidades quantas eu podia encontrar no mundo. Pela diversidade dos livros, das histórias, existe uma diversidade de coisas e é como a diversidade dos seres que povoam essa terra e que todos gostaríamos de conhecer e lamentamos que em em anos não estaremos mais aqui e não teremos conhecido as pessoas que vivem no Brasil ou em outros lugares." pp. 30-31

Através da leitura, eu, aqui no Brasil, conheci a você, Ridha. Viver para sempre seria legal se for para passar o tempo (infinito) em leitura; e o fato de não podermos ler tudo o que queremos nesse curto espaço de vida é mesmo motivo para lamentar.

PETIT, Michèle. Os jovens e a leitura: uma nova perspectiva. São Paulo: Editora 34, 2008. 192 p.

sexta-feira, 7 de março de 2014

O casamento do céu e do inferno

[Chapa 11]

Os poetas da Antiguidade atribuíam a condição de Deuses ou Gênios a todas as coisas vivas, chamando-as por nomes e adornando-as com as propriedades dos bosques, rios, montanhas, lagos, cidades, nações, e o que mais seus numerosos e amplificados sentidos podiam perceber.

E de modo especial, estudavam a índole de cada cidade ou país, colocando-a sob a proteção de sua divindade mental.

Até que se formou um sistema do qual alguns se aproveitaram e escravizaram o vulgo, tentando dar forma às deidades mentais ou abstraí-las de seus objetos; assim surgiu o Sacerdócio.

Extraindo formas de cultos das lendas poéticas.

Até finalmente proclamarem que os Deuses haviam ordenado tais coisas.

E foi assim que os homens esqueceram que Todas as divindades residem no coração humano.

  

Blake, William. O casamento do céu e do inferno. Trad.: Ivo Barroso. São Paulo: Hedra, 2008. p. 39.