Não me parece inverossímil que em alguma estante do universo haja um livro total; rogo aos deuses ignorados que um homem - só um, ainda que seja, há milhares de anos! - haja o examinado e lido. Se a honra e a sabedoria e a felicidade não são para mim, que sejam para outros. Que o céu exista, ainda que meu lugar seja o inferno. Que eu seja ultrajado e aniquilado, mas que em um instante, em um ser, Tu, enorme Biblioteca, se justifique.
(...)
As epidemias, as discórdias heréticas, as peregrinações que inevitavelmente se degeneram em bandoleirismo, dizimaram a população. Creio ter mencionado os suicídios, a cada ano mais frequentes. Talvez a velhice e o temor me enganem, mas suspeito que a espécie humana - a única - está por extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvil, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.
BORGES, Jorge Luis. "La Biblioteca de Babel" in: Ficciones. Buenos Aires: Emecé Editores, 2005. p. 105-120 (tradução nossa)
Normalmente acontece assim; a morte chega e vestimos o luto. Não sei exatamente por que, mas eu fiz o contrário. Primeiro eu vesti o luto, mas a morte nunca chegou. 02:51
De certa forma, o medo é filho de Deus, redimido na sexta-feira santa. Ele não é bonito, zombado, amaldiçoado, renegado por todos. mas não entenda mal, ele cuida de toda a agonia mortal, ele intercede pelos homens. 08:29
Ninguém fala a exceção. Todos falam a regra. Ela não pode ser falada. (...) A regra quer a morte da exceção. A regra da Europa Cultural é organizar a morte da arte de viver, que ainda floresce sob nossos pés. 08:50
A imagem é pura criação da mente. Não pode nascer de uma comparação, mas da aproximação de duas realidades distantes. Quanto mais os laços entre essas duas realidades são distantes e certos, mais forte será a imagem. Duas realidades sem laços não podem ser aproximadas de forma proveitosa. Nenhuma imagem é criada. E duas realidades contrárias não se conciliam uma com a outra. Uma imagem não é forte por ser brutal ou fantástica, mas porque a associação de ideias é distante. Distante e justa.
10:59
O espírito tem poder apenas na medida em que contempla o negativo face a face. 22:01
O que é trágico nas realções sexuais é a virgindade das almas. 26:11
A arte é como o fogo: nasce daquilo que queima. 33:55
Uma folha em branco é o verdadeiro espelho do homem. 36:58
Se pudermos mostrar que a carne é uma noção fundamental que não é nem união nem composição de duas substâncias mas pode ser concebida em si mesma. Se o visível tem uma relação consigo mesmo que me atravessa e me constitui como eu vejo. Observando este círculo que não sou eu quem crio, mas que cria a mim, essa espiral do visível com o visível pode seguir em frente e animar outros corpos, assim como o meu. E eu poderia compreender como essa onda nasce em mim como um visível adiante é simultaneamente minha paisagem. 44:11
Quando nos exprimimos, nós dizemos mais do que desejamos. Achamos que expressamos o individual, mas nós expressamos o universal. Eu tenho frio. Sou eu que digo 'eu tenho frio'. Mas não sou eu que sou ouvido. Eu desapareço entre estes dois momentos do discurso. Tudo que resta de mim é o homem com frio. E este homem pertence a todos. 46:35
Onde você vive? Na linguagem, e não posso me manter quieto. Ao falar, eu me lanço naquele lugar desconhecido, uma terra estrangeira. E subitamente me torno responsável por ela. Eu me tornei universal. 47:05
O passado não morre. Ele nem mesmo passou. 49:14
Um homem, nada além de um homem. Não melhor que nenhum outro, mas nenhum outro melhor que ele. 53:17
"Toda a nossa realidade tornou-se experimental." p.19
"É aí, quanto tudo se dá a ver (como em Big Brother, os reality shows, etc.), que se percebe que não há mais nada a ver. É o espelho da banalidade, do grau zero, onde se faz a prova, contrariamente a todos os objetos, da desaparição do outro, e talvez mesmo do fato de que o ser humano não é fundamentalmente um ser social." p.20
"É este o objetivo mais claro da operação: a servilidade das vítimas, mas a servilidade voluntária, a das vítimas que gozam com o mal que se lhes faz, com a vergonha que se lhes impõe." p. 24-5
" (...) é no recalcamento que a sexualidade ganhou essa autoridade e essa aura de atrator estranho - manifestada, ela perde essa qualidade potencial" p. 27
"Pode ser talvez uma estratégia da mídia oferecer espetáculos mais nulos do que a realidade - hiper-reais em sua debilidade, e dando aos espectadores uma possibilidade diferencial de satisfação." p.38
"Em vista (...) da adesão entusiástica a essa encenação da servidão experimental, pode-se adivinhar que o exercício da liberdade não é certamente um dado de base da antropologia e que o homem, se alguma vez a exerceu, não pára de se desvencilhar dela em favor de técnicas mais animais de automatismo coletivo." p. 47
"escancaramento para o abismo do corpo inteiro (...) não é também de longe sequer da história do califa que, após o strip-tease da dançarina, mandou esfolá-la viva, sempre para saber mais." p.52
"O século vinte terá visto todo tipo de crime - Auschwitz, Hiroshima, genocídios -, mas o único verdadeiro crime perfeito é, nos termos de Heidegger, "a segunda queda do homem, a queda na banalidade". p.58
BAUDRILLARD, Jean. Telemorfose. Trad.: Muniz Sodré. Rio de Janeiro: Mauad, 2004.
Já viste trabalho em fotografia? Revelar uma chapa? Chapa é uma placa de vidro recoberto duma leve camada de gelatina sensibilizada, de aparência branca e opaca. Pões-na, porém, dentro do banho revelador e a imagem que existia misteriosamente oculta dentro da gelatina delineia-se aos poucos, vai ganhando contornos e nitidez, até de todo se revelar com perfeição. Tu foste para mim o que o revelador é para a chapa. Donde parecia nada existir que não fosse aridez e revolta, e orgulho e pessimismo e tédio, tu arrancaste mil qualidades preciosas e inestimáveis – amor, ternura, otimismo, alegria, bondade. Agora vejo que tudo isso existia em mim latentemente e só esperava a forte simpatia duma criatura como tu para se expandir. E sou-te grato, imensamente, por isso.
Trecho da carta de Monteiro Lobato à sua esposa, D. Maria da Pureza Natividade, em 1907.
in: Lobato, Monteiro. Cartas de amor. 1ª ed. São Paulo: Globo, 2011. p. 91
O site Alternative Reel elegeu os 10 maiores alcoólatras da literatura americana, que na verdade são 12. Traduzi a lista e as frases célebres, que tem Edgar Allan Poe, Faulkner, Fitzgerald e um óbvio primeiro lugar.
Após um mês de sobriedade minhas faculdades se tornaram insuportavelmente afiadas e eu me tornei um clarividente doentio, tendo visões de lugares para os quais nunca fui. Ao contrário de alguns homens, nunca bebi para ter coragem, charme ou inteligência; eu usei o álcool precisamente porque ele era um sedativo para conferir a alegria mental produzida pela sobriedade prolongada.
O álcool me maltratou. O álcool e eu passamos muitos, mas muitos momentos maravilhosos juntos. Nós rimos, conversamos, dançamos juntos em festas, até um dia em que levantei, a galera havia ido embora de casa e eu estava deitado no vidro quebrado com a camisa cheia de vômito, e disse, ‘ei, cara, agora é que começa o jogo’. [Nota do Editor: de acordo com notícias publicadas, Crews tem se mantido sóbrio desde 1987. Vá em frente, Harry!]
Eu carregava uma bela excitação alcoólica comigo. A coisa se alimentava por si própria e inflamava violentamente. Não tinha hora, todos os dias ao acordar, que eu não quisesse um drinque. Comecei a apressar a realização das minhas mil palavras diárias para beber quando somente quinhentas palavras haviam sido escritas. Não demorou muito até começar o trabalho das mil palavras já com um drinque na mão.
Absolutamente não tenho nenhum prazer nos estimulantes que às vezes tomo loucamente. Não foi na busca pelo prazer que eu arrisquei a vida e a reputação e a razão. Foi a tentativa desesperada de escapar das memórias tortuosas, de um senso de insuportável solidão e um pavor de alguma estranha ruína iminente.
Não há nada como um uísque ruim. Alguns uísques só surgem para serem melhores que outros. Mas um homem não deve brincar com bebida até os 50 anos; aí então ele é um maldito babaca se não o faz. — Faulkner
Prefiro ter uma garrafa na minha frente que uma lobotomia frontal. — Parker
Beber é algo emocional. Isso sacode você para fora da padronização da vida cotidiana, fora de toda aquela mesma coisa de sempre. Isso te arranca do seu corpo e da sua mente e te joga contra a parede. Tenho a sensação que beber é uma forma de suicídio na qual você está autorizado a retornar à vida e começar tudo de novo no dia seguinte. É como se matar, e depois você renasce. Eu acho que vivi umas dez ou quinze mil vidas até agora.
Às vezes alguém se julga incompleto e é apenas jovem.
Ao término da leitura de O Visconde partido ao meio, lamentei tê-lo lido neste momento. O livro, uma das obras mais conhecidas de Ítalo Calvino, é uma alegoria sobre temas como a moral, a polarização, a personalidade, as descobertas da juventude. E é por isso que lamentei que a leitura fosse feita neste momento da vida. Se estabelecermos o conceito de livro juvenil como aquele que é eleito pelo jovem como um bom livro, este seria um livro eleito da minha juventude.
Isto porque é uma história recheada de descobertas. O narrador é um garoto que conta de perto a vida de seu tio, um visconde atingido por uma bala de canhão, que se divide em dois pedaços. As duas pessoas em que ele se transformou saem por aí praticando o bem e o mal, destruindo e construindo, uma metade de bom coração, a outra de um ódio infinito.
As questões que este livro me trouxe são aquelas que me incomodavam em algum momento de descobertas: que ninguém é inteiramente bom ou mal, que a bondade excessiva é tão prejudicial quanto a maldade, e que só somos realmente completos quando reunimos o bem e o mal, o medo e a euforia, quando unimos as duas metades do tio visconde.
Mas talvez eu não tivesse conseguido ler este livro na época em que essas questões surgiam pra mim. Senti dificuldades pra engrenar no livro, e a leitura só começou a fluir na segunda metade do livro, a metade que eu considerei como boa. Talvez seja um problema na tradução: uma bela história em linguagem truncada, de vocabulário difícil praquele leitor que eu era aos 13, 14 anos. Mas uma bela fantasia, um cenário mágico, fantástico, com todos os ingredientes pra fisgar aquele eu que eu era.
Ah, Pamela, esta é a virtude de um ser partido ao meio: entender o sofrimento de cada pessoa e coisa do mundo diante da própria imperfeição. Eu estava inteiro e não entendia, movimentava-me surdo e incomunicável entre os sofrimentos e as feridas disseminados por todos os lados. Pamela, não sou apenas eu um ser dividido e dilacerado, mas você também o é, assim como todo mundo. Portanto, possuo agora uma fraternidade que antes, inteiro, não conhecia: aquela com todas as mutilações e todas as carências do mundo.
Não há exercício intelectual que não resulte em fim inútil. Uma doutrina é no início uma descrição verossímil do universo; passam-se os anos e é um simples capítulo – quando não um parágrafo ou um nome – da história da filosofia. Na literatura, essa caducidade final é ainda mais notória. O Quixote – disse-me Menard – foi antes de tudo um livro agradável; agora é uma ocasião de brindes patrióticos, de soberba gramatical, de obscenas edições de luxo. A glória é uma incompreensão e talvez a pior.
BORGES, Jorge Luis. "Pierre Menard, autor del Quijote" in: Ficciones. Buenos Aires: La Nación, 1995. p. 68. (grifo nosso, tradução nossa).
Exigiu você que eu escrevesse, manu propria, nos espaços brancos dêste seu exemplar de "Sagarana", uma explicação, uma confissão, uma conversa, a mais extensa, possível – o imposto João Condé para escritores, enfim. Ora, nem o assunto é simples, nem sei eu bem o que contar. Mirrado pé de couve, seja, o livro fica sendo, no chão do seu autor, uma árvore velha, capaz de transviá-lo e de o fazer andar errado, se tenta alcançar-lhe os fios extremos, no labirinto das raízes. Graças a Deus, tudo é mistério.
Algo, porém, tem de ser dito. Ao autor o que é do autor, mas a João Condé o que é de João Condé. Assim, pois, em 1937 - um dia, outro dia, outro dia... - quando chegou a hora de o "Sagarana" ter de ser escrito, pensei muito. Num barquinho, que viria descendo o rio e passaria ao alcance das minhas mãos, eu ia poder colocar o que quisesse. Principalmente, nêle poderia embarcar, inteira, no momento, a minha concepção-do-mundo. Tinha de pensar, igualmente, na palavra "arte", em tudo o que ela para mim representava, como corpo e como alma; como um daqueles variados caminhos que levam do temporal ao eterno, principalmente. Já pressentira que o livro, não podendo ser de poemas, teria de ser de novelas. E - sendo meu - uma série de Histórias adultas da Carochinha, portanto. Rezei, de verdade, para que pudesse esquecer-me, por completo, de que algum dia já tivessem existido septos, limitações, tabiques, preconceitos, a respeito de normas, modas, tendências, escolas literárias, doutrinas, conceitos, atualidades e tradições - no tempo e no espaço. Isso, porque: na panela do pobre, tudo é tempero. E, conforme aquêle sábio salmão grego de André Maurois: um rio sem margens é o ideal do peixe.
Aí, experimentei o meu estilo, como é que estaria. Me agradou. De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira. O que eu gostaria de poder fazer (não o que fiz, João Condé!) seria aplicar, no caso, a minha interpretação de uns versos de Paul Eluard: “...o peixe avança nágua, como um dedo numa luva...”. Um ideal: precisão, micromilimétrica. E riqueza, oh! riqueza... Pelo menos, impiedoso, horror ao lugar-comum; que as chapas são pedaços de carne corrompida, são pecados contra o Espírito Santo, são taperas no território do idioma. Mas, ainda haveria mais, se possível (sonhar é fácil, João Condé, realizar é que são elas...): além dos estados líquidos e sólidos, porque não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?!
Aquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia. Um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores. Porque o povo do interior – sem convenções, "pôses" - dá melhores personagens de parábolas: lá se vêem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores estalarem sob o ráio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a sêca. Bem, resumindo: ficou resolvido que o livro se passaria no interior de Minas Gerais. E compor-se-ia de 12 novelas.
Aqui, caro Condé, findava a fase de premeditação. Restava agir. Então, passei horas de dias, fechado no quarto, cantando cantigas sertanejas, dialogando com vaqueiros de velha lembrança, "revendo" paisagens da minha terra, e aboiando para um gado. Quando a máquina esteve pronta, parti. Lembro-me de que foi num domingo, de manhã. O livro foi escrito - quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 fôlhas - em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento. (Depois, repousou durante sete anos; e, em 1945 foi "retrabalhado", em cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez). Lá por novembro, contratei com uma dactilógrafa a passagem a limpo. E, a 31 de dezembro de 1937, entreguei o original, às 5 e meia da tarde, na Livraria José Olympio. O título escolhido era "Sezão"; mas, para melhor resguardar o anonimato, pespeguei no cartapácio, à última hora, este rótulo simples: "Contos (título provisório, a ser substituido) por Viator. Porque eu ia ter de começar longas viagens, logo após.
Como já disse, as histórias eram doze:
I) - O BURRINHO PEDREZ - Peça não-profana, mas sugerida por um acontecimento real, passado em minha terra, há muitos anos: o afogamento de um grupo de vaqueiros, num córrego cheio.
II) - A VOLTA DO MARIDO PRÓDIGO – A menos "pensada" das novelas do "Sagarana" a única que foi pensada velozmente, na ponta do lápis. Também, quase não foi manipulada, em 1945.
III) - DUELO - Aqui, tudo aconteceu ao contrário do que ficou dito para a anterior: a história foi meditada e "vivida", durante um mês, para ser escrita em uma semana, aproximadamente. Contudo, também quase não sofreu retoques em 1945.
IV) - SARAPALHA - Desta, da história desta história, pouco me lembro. No livro, será ela, talvez, a de que menos gosto.
V) - QUESTÕES DE FAMILIA - História fraca, sincera demais, meio autobiográfica, mal realizada. Foi expelida do livro e definitivamente destruída.
VI) - UMA HISTORIA DE AMOR - Um belo tema, que não consegui desenvolver razoávelmente. Teve o mesmo destino da novela anterior.
VII) - MINHA GENTE - Por causa de uma gripe, talvez, foi escrita molemente, com uma pachorra e um descansado de espírito, que o autor não poderia ter, ao escrever as demais.
VIII) - CONVERSA DE BOIS - Aqui, houve fenômeno interessante, o único caso, nêste livro, de mediunismo puro. Eu planejara escrever um conto de carro-de-bois com o carro, os bois, o guia e o carreiro. Penosamente, urdi o enrêdo, e, um sábado, fui dormir, contente, disposto a pôr em caderno, no domingo, a história (n. 1). Mas, no domingo caiu-me do ou no crânio, prontinha, espécie de Minerva, outra história (n. 2) - também com carro, bois, carreiro e guia - totalmente diferente da da véspera. Não hesitei: escrevi-a, logo, e me esquecida outra, da anterior. Em 1945, sofreu grandes retoques, mas nada recebeu da versão préhistórica, que fôra definitivamente sacrificada.
IX) - BICHO MAU - Deixou de figurar no "Sagarana", porque não tem parentesco profundo com as nove histórias dêste, com as quais se amadrinhara, apenas por pertencer à mesma época e à mesma zona. Seu sentido é outro. Ficou guardada para outro livro de novelas, já concebido, e que, daqui a alguns anos, talvez seja escrito.
X) -CORPOFECHADO - Talvez seja a minha predileta. Manuel Fulô foi o personagem que mais "Humanamente" comigo, e cheguei a desconfiar de que ele pudesse ter uma qualquer espécie de existéncia. Assim, viveu ele para mim mais umas 3 ou 4 histórias, que nao aproveitei no papel, porque não tinham valor de parábolas, não "transcendiam".
XI) - SÃO MARCOS - Demorada para escrever, pois exigia grandes esforços de memória, para a reconstituição de paisagens já muito afundadas. Foi a peça mais trabalhada do livro.
XII) - A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA - História mais séria, de certo modo síntese e chave de tôdas as outras, não falarei sôbre o seu conteúdo. Quanto à forma, representa para mim vitória íntima, pois, desde o coméço do livro, o seu estilo era o que eu procurava descobrir.
Por ora, Conde, aqui está o que eu pude relembrar, acerca do "Sagarana". Se Você quiser, eu poderei contar, mais tarde -, num exemplar da 2ª edição - algumas passagens históricas, ocorridas entre o dia 31 de dezembro de 1937 e a data em que o livro foi entregue à Editora umversal. Serve?
Com o cordial abraço do
Guimarães Rosa.
In: GUIMARÃES ROSA, João. Sagarana. Rio de Janeiro: Record, 1984. (Col. Mestres da Literatura Contemporânea)