O site Alternative Reel elegeu os 10 maiores alcoólatras da literatura americana, que na verdade são 12. Traduzi a lista e as frases célebres, que tem Edgar Allan Poe, Faulkner, Fitzgerald e um óbvio primeiro lugar.
Após um mês de sobriedade minhas faculdades se tornaram insuportavelmente afiadas e eu me tornei um clarividente doentio, tendo visões de lugares para os quais nunca fui. Ao contrário de alguns homens, nunca bebi para ter coragem, charme ou inteligência; eu usei o álcool precisamente porque ele era um sedativo para conferir a alegria mental produzida pela sobriedade prolongada.
O álcool me maltratou. O álcool e eu passamos muitos, mas muitos momentos maravilhosos juntos. Nós rimos, conversamos, dançamos juntos em festas, até um dia em que levantei, a galera havia ido embora de casa e eu estava deitado no vidro quebrado com a camisa cheia de vômito, e disse, ‘ei, cara, agora é que começa o jogo’. [Nota do Editor: de acordo com notícias publicadas, Crews tem se mantido sóbrio desde 1987. Vá em frente, Harry!]
Eu carregava uma bela excitação alcoólica comigo. A coisa se alimentava por si própria e inflamava violentamente. Não tinha hora, todos os dias ao acordar, que eu não quisesse um drinque. Comecei a apressar a realização das minhas mil palavras diárias para beber quando somente quinhentas palavras haviam sido escritas. Não demorou muito até começar o trabalho das mil palavras já com um drinque na mão.
Absolutamente não tenho nenhum prazer nos estimulantes que às vezes tomo loucamente. Não foi na busca pelo prazer que eu arrisquei a vida e a reputação e a razão. Foi a tentativa desesperada de escapar das memórias tortuosas, de um senso de insuportável solidão e um pavor de alguma estranha ruína iminente.
Não há nada como um uísque ruim. Alguns uísques só surgem para serem melhores que outros. Mas um homem não deve brincar com bebida até os 50 anos; aí então ele é um maldito babaca se não o faz. — Faulkner
Prefiro ter uma garrafa na minha frente que uma lobotomia frontal. — Parker
Beber é algo emocional. Isso sacode você para fora da padronização da vida cotidiana, fora de toda aquela mesma coisa de sempre. Isso te arranca do seu corpo e da sua mente e te joga contra a parede. Tenho a sensação que beber é uma forma de suicídio na qual você está autorizado a retornar à vida e começar tudo de novo no dia seguinte. É como se matar, e depois você renasce. Eu acho que vivi umas dez ou quinze mil vidas até agora.
Às vezes alguém se julga incompleto e é apenas jovem.
Ao término da leitura de O Visconde partido ao meio, lamentei tê-lo lido neste momento. O livro, uma das obras mais conhecidas de Ítalo Calvino, é uma alegoria sobre temas como a moral, a polarização, a personalidade, as descobertas da juventude. E é por isso que lamentei que a leitura fosse feita neste momento da vida. Se estabelecermos o conceito de livro juvenil como aquele que é eleito pelo jovem como um bom livro, este seria um livro eleito da minha juventude.
Isto porque é uma história recheada de descobertas. O narrador é um garoto que conta de perto a vida de seu tio, um visconde atingido por uma bala de canhão, que se divide em dois pedaços. As duas pessoas em que ele se transformou saem por aí praticando o bem e o mal, destruindo e construindo, uma metade de bom coração, a outra de um ódio infinito.
As questões que este livro me trouxe são aquelas que me incomodavam em algum momento de descobertas: que ninguém é inteiramente bom ou mal, que a bondade excessiva é tão prejudicial quanto a maldade, e que só somos realmente completos quando reunimos o bem e o mal, o medo e a euforia, quando unimos as duas metades do tio visconde.
Mas talvez eu não tivesse conseguido ler este livro na época em que essas questões surgiam pra mim. Senti dificuldades pra engrenar no livro, e a leitura só começou a fluir na segunda metade do livro, a metade que eu considerei como boa. Talvez seja um problema na tradução: uma bela história em linguagem truncada, de vocabulário difícil praquele leitor que eu era aos 13, 14 anos. Mas uma bela fantasia, um cenário mágico, fantástico, com todos os ingredientes pra fisgar aquele eu que eu era.
Ah, Pamela, esta é a virtude de um ser partido ao meio: entender o sofrimento de cada pessoa e coisa do mundo diante da própria imperfeição. Eu estava inteiro e não entendia, movimentava-me surdo e incomunicável entre os sofrimentos e as feridas disseminados por todos os lados. Pamela, não sou apenas eu um ser dividido e dilacerado, mas você também o é, assim como todo mundo. Portanto, possuo agora uma fraternidade que antes, inteiro, não conhecia: aquela com todas as mutilações e todas as carências do mundo.
Não há exercício intelectual que não resulte em fim inútil. Uma doutrina é no início uma descrição verossímil do universo; passam-se os anos e é um simples capítulo – quando não um parágrafo ou um nome – da história da filosofia. Na literatura, essa caducidade final é ainda mais notória. O Quixote – disse-me Menard – foi antes de tudo um livro agradável; agora é uma ocasião de brindes patrióticos, de soberba gramatical, de obscenas edições de luxo. A glória é uma incompreensão e talvez a pior.
BORGES, Jorge Luis. "Pierre Menard, autor del Quijote" in: Ficciones. Buenos Aires: La Nación, 1995. p. 68. (grifo nosso, tradução nossa).
Exigiu você que eu escrevesse, manu propria, nos espaços brancos dêste seu exemplar de "Sagarana", uma explicação, uma confissão, uma conversa, a mais extensa, possível – o imposto João Condé para escritores, enfim. Ora, nem o assunto é simples, nem sei eu bem o que contar. Mirrado pé de couve, seja, o livro fica sendo, no chão do seu autor, uma árvore velha, capaz de transviá-lo e de o fazer andar errado, se tenta alcançar-lhe os fios extremos, no labirinto das raízes. Graças a Deus, tudo é mistério.
Algo, porém, tem de ser dito. Ao autor o que é do autor, mas a João Condé o que é de João Condé. Assim, pois, em 1937 - um dia, outro dia, outro dia... - quando chegou a hora de o "Sagarana" ter de ser escrito, pensei muito. Num barquinho, que viria descendo o rio e passaria ao alcance das minhas mãos, eu ia poder colocar o que quisesse. Principalmente, nêle poderia embarcar, inteira, no momento, a minha concepção-do-mundo. Tinha de pensar, igualmente, na palavra "arte", em tudo o que ela para mim representava, como corpo e como alma; como um daqueles variados caminhos que levam do temporal ao eterno, principalmente. Já pressentira que o livro, não podendo ser de poemas, teria de ser de novelas. E - sendo meu - uma série de Histórias adultas da Carochinha, portanto. Rezei, de verdade, para que pudesse esquecer-me, por completo, de que algum dia já tivessem existido septos, limitações, tabiques, preconceitos, a respeito de normas, modas, tendências, escolas literárias, doutrinas, conceitos, atualidades e tradições - no tempo e no espaço. Isso, porque: na panela do pobre, tudo é tempero. E, conforme aquêle sábio salmão grego de André Maurois: um rio sem margens é o ideal do peixe.
Aí, experimentei o meu estilo, como é que estaria. Me agradou. De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira. O que eu gostaria de poder fazer (não o que fiz, João Condé!) seria aplicar, no caso, a minha interpretação de uns versos de Paul Eluard: “...o peixe avança nágua, como um dedo numa luva...”. Um ideal: precisão, micromilimétrica. E riqueza, oh! riqueza... Pelo menos, impiedoso, horror ao lugar-comum; que as chapas são pedaços de carne corrompida, são pecados contra o Espírito Santo, são taperas no território do idioma. Mas, ainda haveria mais, se possível (sonhar é fácil, João Condé, realizar é que são elas...): além dos estados líquidos e sólidos, porque não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?!
Aquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia. Um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores. Porque o povo do interior – sem convenções, "pôses" - dá melhores personagens de parábolas: lá se vêem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores estalarem sob o ráio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a sêca. Bem, resumindo: ficou resolvido que o livro se passaria no interior de Minas Gerais. E compor-se-ia de 12 novelas.
Aqui, caro Condé, findava a fase de premeditação. Restava agir. Então, passei horas de dias, fechado no quarto, cantando cantigas sertanejas, dialogando com vaqueiros de velha lembrança, "revendo" paisagens da minha terra, e aboiando para um gado. Quando a máquina esteve pronta, parti. Lembro-me de que foi num domingo, de manhã. O livro foi escrito - quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 fôlhas - em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento. (Depois, repousou durante sete anos; e, em 1945 foi "retrabalhado", em cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez). Lá por novembro, contratei com uma dactilógrafa a passagem a limpo. E, a 31 de dezembro de 1937, entreguei o original, às 5 e meia da tarde, na Livraria José Olympio. O título escolhido era "Sezão"; mas, para melhor resguardar o anonimato, pespeguei no cartapácio, à última hora, este rótulo simples: "Contos (título provisório, a ser substituido) por Viator. Porque eu ia ter de começar longas viagens, logo após.
Como já disse, as histórias eram doze:
I) - O BURRINHO PEDREZ - Peça não-profana, mas sugerida por um acontecimento real, passado em minha terra, há muitos anos: o afogamento de um grupo de vaqueiros, num córrego cheio.
II) - A VOLTA DO MARIDO PRÓDIGO – A menos "pensada" das novelas do "Sagarana" a única que foi pensada velozmente, na ponta do lápis. Também, quase não foi manipulada, em 1945.
III) - DUELO - Aqui, tudo aconteceu ao contrário do que ficou dito para a anterior: a história foi meditada e "vivida", durante um mês, para ser escrita em uma semana, aproximadamente. Contudo, também quase não sofreu retoques em 1945.
IV) - SARAPALHA - Desta, da história desta história, pouco me lembro. No livro, será ela, talvez, a de que menos gosto.
V) - QUESTÕES DE FAMILIA - História fraca, sincera demais, meio autobiográfica, mal realizada. Foi expelida do livro e definitivamente destruída.
VI) - UMA HISTORIA DE AMOR - Um belo tema, que não consegui desenvolver razoávelmente. Teve o mesmo destino da novela anterior.
VII) - MINHA GENTE - Por causa de uma gripe, talvez, foi escrita molemente, com uma pachorra e um descansado de espírito, que o autor não poderia ter, ao escrever as demais.
VIII) - CONVERSA DE BOIS - Aqui, houve fenômeno interessante, o único caso, nêste livro, de mediunismo puro. Eu planejara escrever um conto de carro-de-bois com o carro, os bois, o guia e o carreiro. Penosamente, urdi o enrêdo, e, um sábado, fui dormir, contente, disposto a pôr em caderno, no domingo, a história (n. 1). Mas, no domingo caiu-me do ou no crânio, prontinha, espécie de Minerva, outra história (n. 2) - também com carro, bois, carreiro e guia - totalmente diferente da da véspera. Não hesitei: escrevi-a, logo, e me esquecida outra, da anterior. Em 1945, sofreu grandes retoques, mas nada recebeu da versão préhistórica, que fôra definitivamente sacrificada.
IX) - BICHO MAU - Deixou de figurar no "Sagarana", porque não tem parentesco profundo com as nove histórias dêste, com as quais se amadrinhara, apenas por pertencer à mesma época e à mesma zona. Seu sentido é outro. Ficou guardada para outro livro de novelas, já concebido, e que, daqui a alguns anos, talvez seja escrito.
X) -CORPOFECHADO - Talvez seja a minha predileta. Manuel Fulô foi o personagem que mais "Humanamente" comigo, e cheguei a desconfiar de que ele pudesse ter uma qualquer espécie de existéncia. Assim, viveu ele para mim mais umas 3 ou 4 histórias, que nao aproveitei no papel, porque não tinham valor de parábolas, não "transcendiam".
XI) - SÃO MARCOS - Demorada para escrever, pois exigia grandes esforços de memória, para a reconstituição de paisagens já muito afundadas. Foi a peça mais trabalhada do livro.
XII) - A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA - História mais séria, de certo modo síntese e chave de tôdas as outras, não falarei sôbre o seu conteúdo. Quanto à forma, representa para mim vitória íntima, pois, desde o coméço do livro, o seu estilo era o que eu procurava descobrir.
Por ora, Conde, aqui está o que eu pude relembrar, acerca do "Sagarana". Se Você quiser, eu poderei contar, mais tarde -, num exemplar da 2ª edição - algumas passagens históricas, ocorridas entre o dia 31 de dezembro de 1937 e a data em que o livro foi entregue à Editora umversal. Serve?
Com o cordial abraço do
Guimarães Rosa.
In: GUIMARÃES ROSA, João. Sagarana. Rio de Janeiro: Record, 1984. (Col. Mestres da Literatura Contemporânea)
Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge
para que meus inimigos,
tendo pés não me alcancem,
tendo mãos não me peguem,
tendo olhos não me vejam,
e nem em pensamentos eles possam me fazer mal.
Armas de fogo o meu corpo não alcançarão,
facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar,
cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar.
(...)
Glorioso São Jorge, em nome de Deus,
estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas,
defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza,
e que debaixo das patas de seu fiel ginete
meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós.
Assim seja com o poder de Deus,
de Jesus
e da falange do Divino Espírito Santo.
São Jorge Rogai por Nós.
"Ainda que os habitantes nada tivessem de 'artistas', tudo ali era artístico. Aquele rapaz de cabelos compridos e vermelhos e de feições impudentes não havia de ser necessàriamente um poeta, mas era irrefutàvelmente um poema (...). Por isso, e sòmente por isso, o lugar merecia estudos pertinentes e demorados; tinha de ser examinado menos como uma oficina de artistas do que como uma delicada, pôsto que consumada, obra de arte."
in: Chesterton, G.K. O homem que foi quinta-feira. Trad. José Laurênio de Melo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1958. pp 9-10.
Os fenícios não eram conhecidos por serem grandes guerreiros, na verdade eram melhores artesãos que guerreiros. Muita coisa leva a crer que os fenícios legaram à história dos povos e dos artefatos o Bastão de Simetria.
Legado aos gregos ou aos macedônios, talvez com passagem pela ibéria, com certa passagem pelo oriente, com registros no sânscrito, o certo é que o Bastão de Simetria pertence, em análise última, à toda humanidade, ou, conforme as interpretações dos médio-orientais, a humanidade pertença aos artefatos mágicos).
O Bastão é uma peça de madeira maciça, de tamanho e diâmetro em proporção áurea e de cor avermelhada. O atributo deste artefato é não permitir os movimentos do mais hábil manejador, e de igual maneira não permite o manejo do inábil.
O guerreiro tem sua vontade anulada e seus gestos não fazem efeito, a peça é conduzida somente nas direções percebidas pelo universo, pela natureza ou pelo próprio bastão. De fato, a peça é quem conduz o manejador, em golpes de sacrifício, em leves acrobacias, sempre de maneira inédita e inequívoca. As mãos do soldado que a conduz são conduzidas, tendo este que adaptar seu corpo, seus gostos e preferências, sua mão de destreza aos movimentos orientados assim que o objeto é tocado, desencadeando seus movimentos lúcidos e simétricos.
Dizem que estes movimentos já estão previstos em algum lugar, e que o Bastão de Simetria, perfeito na sua performance, reproduz o ordenamento divino da natureza e do cosmos, o que o tornou um oráculo para alguns povos do Mediterrâneo. Já foi considerado como umas das únicas maneiras de compreender A Divina Totalidade (o Tao dos chineses), e observá-lo ou tocá-lo poderia servir como cura a qualquer convalescência.
É fato notório que alguns reis já tentaram utilizar tal artefato maravilhoso nas suas mais tenebrosas guerras, na certeza de saírem sempre vencedores, bastando para tanto ter a posse de um objeto que previsse a marcha da imensidão sideral. O que não perceberam de imediato foi a inutilidade do Bastão em ferir o adversário nas guerras, pois seus desígnios não previam qualquer movimento alheio aos seus princípios irracionais e secretos, o que na maioria das vezes não previa o ato violento. Logo os povos notaram que, em vez da guerra, o Bastão de Simetria servia muito mais para a dança, e passaram a incluí-lo apenas nos seus rituais do êxtase.
[Retirado de Fabra, António. "Artefactos blancos de la antiguidad". In: Encyclopaedia de los Artefactos y de la Magia. Madri: Mercador, 1912. p.82 - Tradução nossa]