quinta-feira, 16 de julho de 2015

Ódio eterno ao futebol moderno

É através das manifestações da massa pelos desportos da massa que uma via de transformação dá-se a conhecer. Quem dirá que um simples avanço no campo da moral esportiva não pode dar ensejo a toda uma revolução dos costumes, como a inévitável enxurrada de uma represa causada por uma rachadura na barragem?


quarta-feira, 15 de julho de 2015

Jean Valjean e o crime

"Jean Valjean é a personagem principal do livro Os Miseráveis, de Victor Hugo. Sua história é bastante trágica. Perde os dois pais ainda criança, sendo criado pela irmã. Quando ela fica viúva, com sete filhos para criar, ele começa a ajudá-la. Um inverno, porém, ele não consegue emprego. Desesperado, rouba um pão. É pego e condenado a cinco anos de trabalhos forçados, que, acrescidos de diversas fugas, tornam-se dezenove. Aos poucos ele vai percebendo que quem cometeu um crime não foi ele, foi a sociedade, pois o prejuízo que causou foi ínfimo em comparação ao que sofreu.
É expulso de todos os lugares, pelo simples fato de ser um forçado. O único que o abriga é Don Bienvenu, bispo de Digne. Jean Valjean rouba-lhe os talheres e foge no meio da noite. Porém é pego pelos policiais e levado à casa do bispo. Don Bienvenu, ao contrário do esperado, diz aos policiais que lhe dera os talheres, e lhe pergunta por que não levara os castiçais também. Tamanha bondade vinda de um ser humano faz Jean Valjean repensar sua posição em relação aos homens e à sociedade." (Wikipedia)


terça-feira, 14 de julho de 2015

Chesterton

"Ainda que os habitantes nada tivessem de 'artistas', tudo ali era artístico. Aquele rapaz de cabelos compridos e vermelhos e de feições impudentes não havia de ser necessàriamente um poeta, mas era irrefutàvelmente um poema (...). Por isso, e sòmente por isso, o lugar merecia estudos pertinentes e demorados; tinha de ser examinado menos como uma oficina de artistas do que como uma delicada, pôsto que consumada, obra de arte."


in: CHESTERTON, G.K. O homem que foi quinta-feira. Trad. José Laurênio de Mello. 2ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1958. pp. 9-10



Platão

Logo, o homem justo revela-se-nos, ao que parece, como uma espécie de ladrão, e isso é provável que o tenhas aprendido em Homero. Efectivamente, ele tem grande estima pelo avô materno de Ulisses, Autólico, e afirma que ele excedia todos os homens em roubas e em fazer juras. Parece, pois, que a justiça, segundo a tua opinião, segundo a de Homero e a de Simónides, é uma espécie de arte de furtar, mas para vantagem de amigos e dano de inimigos. Não era isso que dizias?


Platão. A República. Livro I. Trad. 8ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996. p.15

Ridha

Sobre as possibilidades da leitura, o depoimento de Ridha, 22 anos, vive na França, de pais argelinos:

"Quando eu era pequeno, os livros representavam tantas alternativas, tantas possibilidades, saídas, soluções para problemas, e tantas pessoas e individualidades quantas eu podia encontrar no mundo. Pela diversidade dos livros, das histórias, existe uma diversidade de coisas e é como a diversidade dos seres que povoam essa terra e que todos gostaríamos de conhecer e lamentamos que em em anos não estaremos mais aqui e não teremos conhecido as pessoas que vivem no Brasil ou em outros lugares." pp. 30-31

Através da leitura, eu, aqui no Brasil, conheci a você, Ridha. Viver para sempre seria legal se for para passar o tempo (infinito) em leitura; e o fato de não podermos ler tudo o que queremos nesse curto espaço de vida é mesmo motivo para lamentar.

PETIT, Michèle. Os jovens e a leitura: uma nova perspectiva. São Paulo: Editora 34, 2008. 192 p.

sexta-feira, 7 de março de 2014

O casamento do céu e do inferno

[Chapa 11]

Os poetas da Antiguidade atribuíam a condição de Deuses ou Gênios a todas as coisas vivas, chamando-as por nomes e adornando-as com as propriedades dos bosques, rios, montanhas, lagos, cidades, nações, e o que mais seus numerosos e amplificados sentidos podiam perceber.

E de modo especial, estudavam a índole de cada cidade ou país, colocando-a sob a proteção de sua divindade mental.

Até que se formou um sistema do qual alguns se aproveitaram e escravizaram o vulgo, tentando dar forma às deidades mentais ou abstraí-las de seus objetos; assim surgiu o Sacerdócio.

Extraindo formas de cultos das lendas poéticas.

Até finalmente proclamarem que os Deuses haviam ordenado tais coisas.

E foi assim que os homens esqueceram que Todas as divindades residem no coração humano.

  

Blake, William. O casamento do céu e do inferno. Trad.: Ivo Barroso. São Paulo: Hedra, 2008. p. 39.


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Pisadela e beliscão

O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal apessoado, e sobretudo era maganão. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremando beliscão nas costas da mão esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferença de serem desta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos.

Memórias de um sargento de milícias. Aqui.


quarta-feira, 17 de julho de 2013

Bastão de Simetria

Havia um povo antigo que não era exatamente conhecido por forjarem grandes guerreiros, mas sim por terem entre seus membros exímios artesãos. Muito leva a crer que esse povo, cujo nome foi perdido, tenha legado à história dos povos um artefato chamado "Bastão de Simetria".
    Herdado a outro clã após uma batalha e consequente conquista de território, após fluxos migratórios dos povos nômades, com registros em mais de uma língua antiga, o bastão acabou se tornando um bem de toda a humanidade. Trata-se de uma peça de madeira maciça, de origem vegetal indefinida, com tamanho e diâmetro em proporção áurea e de cor encarnada. O atributo maravilhoso deste artefato é não permitir os movimentos do mais hábil manejador, e de igual maneira não permitir o manejo do mais inábil.
    Quem o empunha tem sua vontade anulada no mesmo instante – a peça se movimenta nas direções estabelecidas por uma vontade universal ou natural, pela vontade do próprio bastão, diziam alguns. A peça é quem conduz os movimentos corporais de quem o manuseia, em golpes de sacrifício, em leves acrobacias, sempre de maneira inédita e inequívoca. As mãos do soldado que o conduz são conduzidas, tendo ele que adaptar seus gestos, sua destreza e seus impulsos às orientações do objeto assim que ele é tocado, desencadeando assim seus movimentos simétricos.
    Diz-se que a ordem de trabalho do objeto já está em algum lugar escrita, e que o bastão de simetria, perfeito em sua performance, reproduz um ordenamento divino. Alguns povos perceberam neste ordenamento um verdadeiro oráculo ou guia. O bastão já foi tido como uma forma de compreensão do Todo e como cura para as convalescências do corpo e do espírito.
    Muitos reis já tentaram utilizar o artefato maravilhoso em suas tenebrosas guerras, na certeza de saírem-se vencedores, bastando ter consigo uma ferramenta que previsse a marcha da imensidão à sua frente. O que não perceberam foi a inutilidade do bastão em conflitos tais, ou mesmo para ferir o adversário, pois a peça se recusava a qualquer movimento fora dos seus princípios secretos. Logo perceberam que, em lugar da guerra, o bastão de simetria servia muito mais e melhor para a dança.

[2009]