terça-feira, 24 de abril de 2012

Visita cruel


Ela segura as mãos dele. Conforme os dois vão se movendo juntos, Rolph sente a vergonha desaparecer como por milagre, como se estivesse virando adulto bem ali na pista, tornando-se um menino que dança com meninas feito a irmã. Charlie também sente a mesma coisa. Na verdade, essa lembrança é aquela que irá revisitar vezes sem conta, pelo resto da vida, muito depois de Rolph ter se matado com um tiro na cabeça na casa do pai aos 28 anos de idade: seu irmão ainda menino, com os cabelos colados à cabeça, os olhos brilhando, aprendendo timidamente a dançar. Mas a mulher que se lembrará disso não será Charlie; depois que Rolph morrer, ela recomeçará a usar seu nome de verdade – Charlene –, desassociando-se para sempre da menina que dançou com o irmão na África. Charlene vai cortar os cabelos curtos e estudar direito. Quando tiver um filho, vai querer batizá-lo de Rolph, mas seus pais ainda estarão traumatizados demais. Ela então chamará o filho assim na intimidade, apenas em pensamento, e anos depois estará em pé com a mãe junto a um grupo de pais torcedores ao lado de uma quadra esportiva vendo-o jogar e olhar para o céu com uma expressão sonhadora em seu rosto de menino.    p. 85.



Egan, Jennifer. A visita cruel do tempo. trad. Fernanda Abreu. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011.


 


quinta-feira, 29 de março de 2012

Emília

Emília sempre teve fama de não possuir coração. Mentira. Tinha sim. Está claro que não era nenhum coração de banana como o de tanta gente. Era um coraçãozinho sério, que “pensava que nem uma cabeça”.


Lobato, Monteiro. A chave do tamanho. 1ª ed. São Paulo: Globo, 2008. p. 40


terça-feira, 13 de março de 2012

Vassalagem

A mecânica da vassalagem amorosa exige uma futilidade sem fundamento. Pois, para que a dependência se manifeste na sua pureza, é preciso que ela surja nas circunstâncias mais derrisórias, e se torne inconfessável à força da pulsilanimidade: esperar um telefone é de certa forma uma dependência grosseira (...).



BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. 2ª ed. Trad.: Hortênsia dos Santos. São Paulo: Francisco Alves, 1981. p. 72




quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Filologia

A história imanente dos últimos milênios, da qual se ocupa a filologia enquanto disciplina histórica, é a história da conquista da auto-expressão humana. Ela abrange os documentos do avanço violento e aventureiro dos homens rumo à consciência de sua condição e à realização de suas possibilidades intrínsecas (...). Está contida aí toda a variedade de extremos de que é capaz nosso ser; desenrola-se aí um espetáculo de tal riqueza e profundidade que não pode deixar de pôr em ação todas as energias do espectador, ao mesmo tempo em que o torna capaz, por meio do enriquecimento conquistado, de alcançar alguma paz no âmbito do que lhe é dado.

AUERBACH, Erich. "Filologia da literatura mundial" in: Ensaios de literatura ocidental. São Paulo: Editora 34, 2007. p. 360.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Bird

Charlie "Bird" Parker (1920–1955), o grande inquestionável gênio do jazz moderno, é mais do que um sax alto. Ele foi um revolucionário da música, cujas idéias dominaram praticamente tudo o que já foi escrito em jazz moderno desde o início dos anos 1940. Ele também foi uma alma vulcânica, cujas erupções jorravam, e ainda jorram, arrepios de admiração pela espinha de ouvintes e músicos. Seu caráter revolucionário deliberado fez obscurecer, temporariamente, suas raízes tradicionais: pois o que Parker toca é o blues não adulterado mais down que se pode conceber. Ele está para o jazz dos anos 1940 e 1950 assim como Armstrong está para a fase anterior. E essa figura quintessencial do jazz é, como Armstrong, originária do lumpemproletariado – nesse caso de Kansas City –, mas também, diferentemente de Armstrong, uma pessoa controvertida e deslocada. Um nômade, um drogado, um infeliz, um andarilho sem raízes que morreu aos 35 anos, o Rimbaud do jazz moderno.


HOBSBAWM, Eric J. História Social do Jazz. Trad. Angela Noronha. São Paulo: Paz e Terra, 2010. p. 164-5


domingo, 23 de outubro de 2011

Machismo

“(...) a verdade é que as mulheres sempre tiveram um poder desmesurado sobre os homens, e muitos de bom grado prefeririam o inferno e todos os seus diabões a passar de novo pelo que lhes fez passar alguma mulher. O próprio machismo se voltou contra os machões, tornou o homem prisioneiro dele mesmo, obrigado a não chorar, não brochar, não afrouxar, não pedir penico. Aquilo que, numa primeira visão, oprimia somente as mulheres oprimia mais os homens, que até hoje vivem cercados por um cortejo de mulheres fantasmagóricas, reais e imaginárias, sempre prontas a esqueartejá-los, se o pegarem fora desses padrões. E não adianta psicamálise, nem ficar arrotando liberações. Eles têm medo, eme-é-dê-ó, cagam-se de medo. Medo, teu nome é macho, não disse o Bardo, mas digo eu. Quanta mulher não comeu o homem que quis, apenas porque ele não podia recusar uma mulher? Uma mulher se tranca com um homem num quarto e diz que ele vai comer ela. Ele tem que comer, a não ser que ela seja o corcunda de Nôtre Dame. Até mesmo recusar uma mulher obedece a normas, porque é estabelecido o direito de ela se ofender, se a recusa for feita fora das normas. Por exemplo, ‘você é feia, e eu não vou lhe comer’, não se diz uma coisa dessas a uma mulher. Para não fazer uma inimiga mortal, o recusador tem que ser artista. Já a mulher pode recusar perfeitamente e mesmo nos piores termos possíveis — ‘você nunca, tá?’ —, as mulheres sabem do que eu estou falando, sou uma feminista esclarecida-progressista, sou um grande homem fêmea.”

RIBEIRO, João Ubaldo. A casa dos budas ditosos. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. p. 67 (Col. Plenos Pecados)



terça-feira, 11 de outubro de 2011

Programação da Semana de Ciências Sociais - FSA

Quando? 17 a 22/10
Onde? Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras - Centro Universitário Fundação Santo André.
Av. Príncipe de Gales, 1485 - Santo André - SP

Programação:

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Encontro casual



A condição mortal implica sempre uma divisão, um dilaceramento e um encadeamento de eventos trágicos. Essa duplicidade aparece na sua versão mais nítida no caso de Édipo: inocente e culpado; sábio e louco; poderoso e miserável. Nenhum de seus atos foi intencional, mas ele é o culpado de todos. (...) A condição de Édipo é extremamente significativa: a desgraça primordial do homem é ter nascido; sua culpa fundamental é por existir. A partir daí, como administrar o destino?

Franklin Leopoldo e Silva. Felicidade: dos filósofos pré-socráticos aos contemporâneos. São Paulo: Editora Claridade, 2006. p. 17.


No primeiro volume de Parerga und Paralipomena reli que todos os fatos que podem ocorrer a um homem, desde o instante de seu nascimento até o de sua morte, foram prefixados por ele. Assim, toda negligência é deliberada, todo casual encontro, uma hora marcada, toda humilhação, uma penitência, todo fracasso, uma misteriosa vitória, toda morte, um suicídio. Não há consolo mais hábil que o pensamento de que escolhemos nossas desgraças; essa teleologia individual nos revela uma ordem secreta e prodigiosamente nos confunde com a divindade.

Jorge Luis Borges. "Deutsches Requiem". In: O Aleph. São Paulo: Editora Globo, 1999. p. 48.