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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Pisadela e beliscão

O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal apessoado, e sobretudo era maganão. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremando beliscão nas costas da mão esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferença de serem desta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos.

Memórias de um sargento de milícias. Aqui.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Sem o sexo

Sem o sexo haveria muito menos coisas a fazer. Não teríamos joalherias, não bordaríamos rendas, não serviríamos a comida em travessas de prata, não ergueríamos quartos de hotel em pontões sobre lagoas tropicais. A maior parte da economia deixa de fazer sentido sem o sexo como força motora ou agente organizador. As energias dos pregões, os vestiários com folhas de ouro da Dior na Bond Street, os encontros no Museu de Arte Moderna, os bacalhaus negros servidos no terraço dos restaurantes japoneses – para que serve tudo isso senão para ajudar nos processos que acabarão por levar duas pessoas a fazer amor num quarto escuro enquanto sirenes gritam na rua abaixo?

Allain de Botton. Como pensar mais sobre sexo. Trad. Cristina Paixão Lopes. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. p. 141.




terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A primeira experiência de amor



Para a maioria de nós, a primeira experiência de amor, mesmo quando ele não dá certo – talvez especialmente quando ele não dá certo – promete que ali está a coisa que valida, que justifica a vida. E embora os anos subsequentes possam modificar essa visão, até que alguns de nós a abandone completamente, quando o amor acontece pela primeira vez, não há nada que se compare a ele, há? De acordo?

Barnes, Julian. O sentido de um fim. Trad. Léa Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Rocco, 2012. p. 60





quarta-feira, 11 de julho de 2012

Borges e o romance


Mesmo assim, apesar de sua universalidade formal e da vertiginosa amplitude de seu leque de alusões, a estrutura da arte de Borges tem graves lacunas. Somente uma vez, no conto “Emma Zunz”, Borges criou uma mulher plausível. Em toda a obra restante, as mulheres são os objetos indistintos de fantasias ou recordações masculinas. Mesmo entre os homens, as linhas de força imaginativa numa ficção de Borges são extremamente simplificadas. (…) Quando aparece uma terceira pessoa, será quase invariavelmente, obliquamente, a alusão a uma presença, uma lembrança ou um rápido vislumbre instável na retina. O espaço de ação onde se move uma figura de Borges é mítico, nunca social. Quando se introduz um local, uma posição ou uma circunstância histórica, aparece em toques soltos, exatamente como num sonho. (…) São essas lacunas, essas intensas especializações na consciência, penso eu, que explicam as desconfianças de Borges em relação ao romance. Ele volta ao tema com frequência. Afirma que um autor obrigado pela visão fraca a compor mentalmente e, por assim dizer, de um só impulso, deve se restringir a narrativas muito breves. E é verdade que as primeiras “Ficciones” importantes se seguem ao grave acidente que Borges sofreu em dezembro de 1938. Ele também julga que o romance, como o poema épico que o precedeu, é uma forma transitória: “O romance é uma forma que pode passar, que certamente passará, mas não creio que o conto passará […] Ele é muito mais antigo”. É o contador de histórias na estrada, o skald, o narrador dos pampas, homens cuja cegueira é muitas vezes uma declaração do brilho e da riqueza de vida que viveram, que encarnam a noção de escritor de Borges. Homero é invocado amiúde como ícone protetor. Claro. Mas é da mesma maneira provável que o romance represente precisamente as principais dimensões faltantes em Borges. A presença feminina bem construída, as relações das mulheres com os homens fazem parte da essência da ficção plena. (…) Há muito de simples engenharia num romance.

STEINER, George. “Tigres no espelho” in: Tigres no espelho e outros textos da revista New Yorker. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Biblioteca Azul, 2012. pp. 213-214.



terça-feira, 8 de maio de 2012

O dia em que Emília encontrou-se com Hitler


O Visconde foi andando de sala em sala. Uma delas parecia a do Grande Ditador. — Era aqui — disse Emília — que ele mandava e desmandava. Agora, com certeza, anda escondido em algum buraquinho.
— Mas como poderemos reconhecê-lo?
— Pelo bigode. Nada mais fácil.
Com um pauzinho o Visconde começou a tirar os arianos escondidos nas frestas ou debaixo dos móveis. De sob a secretária do Grande Ditador saíram vários, evidentemente generais e homens de governo. Um deles tinha bigodinho.
A entrevista de Emília com o Grande Ditador dava um livro de mil páginas, mas temos de resumir. A pedido dela o Visconde ergueu-o até a altura da janelinha para que pudesse ouvir o seu discurso.
— Meu senhor — disse ela —, tenho a honra de apresentar a Vossa Excelência o Visconde de Sabugosa, o milho falante lá do sítio de Dona Benta. E também me apresento a mim mesma — frau Emília, Marquesa von Rabicó. Viemos dar uma vista de olhos pelas Europas e o acaso nos largou nesta Alemanha de Vossa Excelência. Mas estou admirada do que vejo. Esperei encontrar o grande arsenal das ditaduras dando tiros de canhão e espirrando fogo, e o que no próprio palácio do Grande Ditador eu vejo são montinhos de farda vazios e arianos insetiformes, tímidos, nus, escondidos pelos cantos e vãos e frestas. Que foi que aconteceu, Excelência?
(...)
O Grande Ditador animou-se e quis falar. Emília o deteve com um gesto.
— Não diga nada, meu senhor. Já houve falação demais. Quem fala agora sou eu. Quero todos muito direitinhos e humildes. Esta semana de “redução” não passa de uma advertência que o tal “alguém” faz ao mundo. Compreende? 
Assim terminou Emília o seu sermão ao chefe do Eixo.


Lobato, Monteiro. A chave do tamanho. São Paulo: Globo, 2008. pp. 100-102


terça-feira, 24 de abril de 2012

Visita cruel


Ela segura as mãos dele. Conforme os dois vão se movendo juntos, Rolph sente a vergonha desaparecer como por milagre, como se estivesse virando adulto bem ali na pista, tornando-se um menino que dança com meninas feito a irmã. Charlie também sente a mesma coisa. Na verdade, essa lembrança é aquela que irá revisitar vezes sem conta, pelo resto da vida, muito depois de Rolph ter se matado com um tiro na cabeça na casa do pai aos 28 anos de idade: seu irmão ainda menino, com os cabelos colados à cabeça, os olhos brilhando, aprendendo timidamente a dançar. Mas a mulher que se lembrará disso não será Charlie; depois que Rolph morrer, ela recomeçará a usar seu nome de verdade – Charlene –, desassociando-se para sempre da menina que dançou com o irmão na África. Charlene vai cortar os cabelos curtos e estudar direito. Quando tiver um filho, vai querer batizá-lo de Rolph, mas seus pais ainda estarão traumatizados demais. Ela então chamará o filho assim na intimidade, apenas em pensamento, e anos depois estará em pé com a mãe junto a um grupo de pais torcedores ao lado de uma quadra esportiva vendo-o jogar e olhar para o céu com uma expressão sonhadora em seu rosto de menino.    p. 85.



Egan, Jennifer. A visita cruel do tempo. trad. Fernanda Abreu. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011.


 


quinta-feira, 29 de março de 2012

Emília

Emília sempre teve fama de não possuir coração. Mentira. Tinha sim. Está claro que não era nenhum coração de banana como o de tanta gente. Era um coraçãozinho sério, que “pensava que nem uma cabeça”.


Lobato, Monteiro. A chave do tamanho. 1ª ed. São Paulo: Globo, 2008. p. 40