O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal apessoado, e sobretudo era maganão. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremando beliscão nas costas da mão esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferença de serem desta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos.
“(...) a verdade é que as mulheres sempre tiveram um poder desmesurado sobre os homens, e muitos de bom grado prefeririam o inferno e todos os seus diabões a passar de novo pelo que lhes fez passar alguma mulher. O próprio machismo se voltou contra os machões, tornou o homem prisioneiro dele mesmo, obrigado a não chorar, não brochar, não afrouxar, não pedir penico. Aquilo que, numa primeira visão, oprimia somente as mulheres oprimia mais os homens, que até hoje vivem cercados por um cortejo de mulheres fantasmagóricas, reais e imaginárias, sempre prontas a esqueartejá-los, se o pegarem fora desses padrões. E não adianta psicamálise, nem ficar arrotando liberações. Eles têm medo, eme-é-dê-ó, cagam-se de medo. Medo, teu nome é macho, não disse o Bardo, mas digo eu. Quanta mulher não comeu o homem que quis, apenas porque ele não podia recusar uma mulher? Uma mulher se tranca com um homem num quarto e diz que ele vai comer ela. Ele tem que comer, a não ser que ela seja o corcunda de Nôtre Dame. Até mesmo recusar uma mulher obedece a normas, porque é estabelecido o direito de ela se ofender, se a recusa for feita fora das normas. Por exemplo, ‘você é feia, e eu não vou lhe comer’, não se diz uma coisa dessas a uma mulher. Para não fazer uma inimiga mortal, o recusador tem que ser artista. Já a mulher pode recusar perfeitamente e mesmo nos piores termos possíveis — ‘você nunca, tá?’ —, as mulheres sabem do que eu estou falando, sou uma feminista esclarecida-progressista, sou um grande homem fêmea.”
RIBEIRO, João Ubaldo. A casa dos budas ditosos. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. p. 67 (Col. Plenos Pecados)
Por mais que pensem de modo diferente, observadores da natureza dignos de crédito concordam que tudo o que aparece, tudo o que se manifesta como fenômeno, deve indicar ou expor uma cisão originária, que pode ser unificada, ou por uma unidade primordial, que pode ser cindida. Cindir o que está unido, unificar o que está cindido é a vida da natureza, eterna sístole e diástole, eterna síncrese e diacrise, inspiração e expiração do mundo, no qual vivemos, criamos e somos.
GOETHE, Johann Wolfgang Von. Doutrina das Cores. Trad. Marco Giannotti. São Paulo: Nova Alexandria, 1993. p. 132
É terrível, minha tia me convida para o seu aniversário, compro de presente um canário pra ela, chego lá não tem ninguém, meu calendário é defeituoso, na volta o canário canta aos montes no bonde, os passageiros entram em estado de cólera, tiro o bilhete do animal para que o respeitem, ao abaixar-me dou com a gaiola na cabeça de uma senhora que me mostra os dentes, chego em casa banhado de alpiste, minha mulher fugiu com o escrivão, caio duro no saguão e esmago o canário, os vizinhos chamam a ambulância e o levam em uma maca, fiquei a noite inteira jogado no saguão comendo o alpiste e ouvindo o telefone na sala, deve ser minha tia ligando, e liga pra que eu não me esqueça do seu aniversário, ela sempre conta com o meu presente, minha pobre tia.
No começo do conto "O Burrinho Pedrês", primeiro do livro Sagarana, de Guimarães Rosa, quando o narrador conta que "a estória de um burrinho, como a historia de um homem grande, é bem dada no resumo de um só dia de sua vida", estaria ele dialogando com um dos motivos principais da história de Ulisses, de James Joyce, passada num só dia da vida de Leopold Bloom?
O site Alternative Reel elegeu os 10 maiores alcoólatras da literatura americana, que na verdade são 12. Traduzi a lista e as frases célebres, que tem Edgar Allan Poe, Faulkner, Fitzgerald e um óbvio primeiro lugar.
Após um mês de sobriedade minhas faculdades se tornaram insuportavelmente afiadas e eu me tornei um clarividente doentio, tendo visões de lugares para os quais nunca fui. Ao contrário de alguns homens, nunca bebi para ter coragem, charme ou inteligência; eu usei o álcool precisamente porque ele era um sedativo para conferir a alegria mental produzida pela sobriedade prolongada.
O álcool me maltratou. O álcool e eu passamos muitos, mas muitos momentos maravilhosos juntos. Nós rimos, conversamos, dançamos juntos em festas, até um dia em que levantei, a galera havia ido embora de casa e eu estava deitado no vidro quebrado com a camisa cheia de vômito, e disse, ‘ei, cara, agora é que começa o jogo’. [Nota do Editor: de acordo com notícias publicadas, Crews tem se mantido sóbrio desde 1987. Vá em frente, Harry!]
Eu carregava uma bela excitação alcoólica comigo. A coisa se alimentava por si própria e inflamava violentamente. Não tinha hora, todos os dias ao acordar, que eu não quisesse um drinque. Comecei a apressar a realização das minhas mil palavras diárias para beber quando somente quinhentas palavras haviam sido escritas. Não demorou muito até começar o trabalho das mil palavras já com um drinque na mão.
Absolutamente não tenho nenhum prazer nos estimulantes que às vezes tomo loucamente. Não foi na busca pelo prazer que eu arrisquei a vida e a reputação e a razão. Foi a tentativa desesperada de escapar das memórias tortuosas, de um senso de insuportável solidão e um pavor de alguma estranha ruína iminente.
Não há nada como um uísque ruim. Alguns uísques só surgem para serem melhores que outros. Mas um homem não deve brincar com bebida até os 50 anos; aí então ele é um maldito babaca se não o faz. — Faulkner
Prefiro ter uma garrafa na minha frente que uma lobotomia frontal. — Parker
Beber é algo emocional. Isso sacode você para fora da padronização da vida cotidiana, fora de toda aquela mesma coisa de sempre. Isso te arranca do seu corpo e da sua mente e te joga contra a parede. Tenho a sensação que beber é uma forma de suicídio na qual você está autorizado a retornar à vida e começar tudo de novo no dia seguinte. É como se matar, e depois você renasce. Eu acho que vivi umas dez ou quinze mil vidas até agora.
Às vezes alguém se julga incompleto e é apenas jovem.
Ao término da leitura de O Visconde partido ao meio, lamentei tê-lo lido neste momento. O livro, uma das obras mais conhecidas de Ítalo Calvino, é uma alegoria sobre temas como a moral, a polarização, a personalidade, as descobertas da juventude. E é por isso que lamentei que a leitura fosse feita neste momento da vida. Se estabelecermos o conceito de livro juvenil como aquele que é eleito pelo jovem como um bom livro, este seria um livro eleito da minha juventude.
Isto porque é uma história recheada de descobertas. O narrador é um garoto que conta de perto a vida de seu tio, um visconde atingido por uma bala de canhão, que se divide em dois pedaços. As duas pessoas em que ele se transformou saem por aí praticando o bem e o mal, destruindo e construindo, uma metade de bom coração, a outra de um ódio infinito.
As questões que este livro me trouxe são aquelas que me incomodavam em algum momento de descobertas: que ninguém é inteiramente bom ou mal, que a bondade excessiva é tão prejudicial quanto a maldade, e que só somos realmente completos quando reunimos o bem e o mal, o medo e a euforia, quando unimos as duas metades do tio visconde.
Mas talvez eu não tivesse conseguido ler este livro na época em que essas questões surgiam pra mim. Senti dificuldades pra engrenar no livro, e a leitura só começou a fluir na segunda metade do livro, a metade que eu considerei como boa. Talvez seja um problema na tradução: uma bela história em linguagem truncada, de vocabulário difícil praquele leitor que eu era aos 13, 14 anos. Mas uma bela fantasia, um cenário mágico, fantástico, com todos os ingredientes pra fisgar aquele eu que eu era.
Ah, Pamela, esta é a virtude de um ser partido ao meio: entender o sofrimento de cada pessoa e coisa do mundo diante da própria imperfeição. Eu estava inteiro e não entendia, movimentava-me surdo e incomunicável entre os sofrimentos e as feridas disseminados por todos os lados. Pamela, não sou apenas eu um ser dividido e dilacerado, mas você também o é, assim como todo mundo. Portanto, possuo agora uma fraternidade que antes, inteiro, não conhecia: aquela com todas as mutilações e todas as carências do mundo.
Exigiu você que eu escrevesse, manu propria, nos espaços brancos dêste seu exemplar de "Sagarana", uma explicação, uma confissão, uma conversa, a mais extensa, possível – o imposto João Condé para escritores, enfim. Ora, nem o assunto é simples, nem sei eu bem o que contar. Mirrado pé de couve, seja, o livro fica sendo, no chão do seu autor, uma árvore velha, capaz de transviá-lo e de o fazer andar errado, se tenta alcançar-lhe os fios extremos, no labirinto das raízes. Graças a Deus, tudo é mistério.
Algo, porém, tem de ser dito. Ao autor o que é do autor, mas a João Condé o que é de João Condé. Assim, pois, em 1937 - um dia, outro dia, outro dia... - quando chegou a hora de o "Sagarana" ter de ser escrito, pensei muito. Num barquinho, que viria descendo o rio e passaria ao alcance das minhas mãos, eu ia poder colocar o que quisesse. Principalmente, nêle poderia embarcar, inteira, no momento, a minha concepção-do-mundo. Tinha de pensar, igualmente, na palavra "arte", em tudo o que ela para mim representava, como corpo e como alma; como um daqueles variados caminhos que levam do temporal ao eterno, principalmente. Já pressentira que o livro, não podendo ser de poemas, teria de ser de novelas. E - sendo meu - uma série de Histórias adultas da Carochinha, portanto. Rezei, de verdade, para que pudesse esquecer-me, por completo, de que algum dia já tivessem existido septos, limitações, tabiques, preconceitos, a respeito de normas, modas, tendências, escolas literárias, doutrinas, conceitos, atualidades e tradições - no tempo e no espaço. Isso, porque: na panela do pobre, tudo é tempero. E, conforme aquêle sábio salmão grego de André Maurois: um rio sem margens é o ideal do peixe.
Aí, experimentei o meu estilo, como é que estaria. Me agradou. De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira. O que eu gostaria de poder fazer (não o que fiz, João Condé!) seria aplicar, no caso, a minha interpretação de uns versos de Paul Eluard: “...o peixe avança nágua, como um dedo numa luva...”. Um ideal: precisão, micromilimétrica. E riqueza, oh! riqueza... Pelo menos, impiedoso, horror ao lugar-comum; que as chapas são pedaços de carne corrompida, são pecados contra o Espírito Santo, são taperas no território do idioma. Mas, ainda haveria mais, se possível (sonhar é fácil, João Condé, realizar é que são elas...): além dos estados líquidos e sólidos, porque não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?!
Aquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia. Um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores. Porque o povo do interior – sem convenções, "pôses" - dá melhores personagens de parábolas: lá se vêem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores estalarem sob o ráio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a sêca. Bem, resumindo: ficou resolvido que o livro se passaria no interior de Minas Gerais. E compor-se-ia de 12 novelas.
Aqui, caro Condé, findava a fase de premeditação. Restava agir. Então, passei horas de dias, fechado no quarto, cantando cantigas sertanejas, dialogando com vaqueiros de velha lembrança, "revendo" paisagens da minha terra, e aboiando para um gado. Quando a máquina esteve pronta, parti. Lembro-me de que foi num domingo, de manhã. O livro foi escrito - quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 fôlhas - em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento. (Depois, repousou durante sete anos; e, em 1945 foi "retrabalhado", em cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez). Lá por novembro, contratei com uma dactilógrafa a passagem a limpo. E, a 31 de dezembro de 1937, entreguei o original, às 5 e meia da tarde, na Livraria José Olympio. O título escolhido era "Sezão"; mas, para melhor resguardar o anonimato, pespeguei no cartapácio, à última hora, este rótulo simples: "Contos (título provisório, a ser substituido) por Viator. Porque eu ia ter de começar longas viagens, logo após.
Como já disse, as histórias eram doze:
I) - O BURRINHO PEDREZ - Peça não-profana, mas sugerida por um acontecimento real, passado em minha terra, há muitos anos: o afogamento de um grupo de vaqueiros, num córrego cheio.
II) - A VOLTA DO MARIDO PRÓDIGO – A menos "pensada" das novelas do "Sagarana" a única que foi pensada velozmente, na ponta do lápis. Também, quase não foi manipulada, em 1945.
III) - DUELO - Aqui, tudo aconteceu ao contrário do que ficou dito para a anterior: a história foi meditada e "vivida", durante um mês, para ser escrita em uma semana, aproximadamente. Contudo, também quase não sofreu retoques em 1945.
IV) - SARAPALHA - Desta, da história desta história, pouco me lembro. No livro, será ela, talvez, a de que menos gosto.
V) - QUESTÕES DE FAMILIA - História fraca, sincera demais, meio autobiográfica, mal realizada. Foi expelida do livro e definitivamente destruída.
VI) - UMA HISTORIA DE AMOR - Um belo tema, que não consegui desenvolver razoávelmente. Teve o mesmo destino da novela anterior.
VII) - MINHA GENTE - Por causa de uma gripe, talvez, foi escrita molemente, com uma pachorra e um descansado de espírito, que o autor não poderia ter, ao escrever as demais.
VIII) - CONVERSA DE BOIS - Aqui, houve fenômeno interessante, o único caso, nêste livro, de mediunismo puro. Eu planejara escrever um conto de carro-de-bois com o carro, os bois, o guia e o carreiro. Penosamente, urdi o enrêdo, e, um sábado, fui dormir, contente, disposto a pôr em caderno, no domingo, a história (n. 1). Mas, no domingo caiu-me do ou no crânio, prontinha, espécie de Minerva, outra história (n. 2) - também com carro, bois, carreiro e guia - totalmente diferente da da véspera. Não hesitei: escrevi-a, logo, e me esquecida outra, da anterior. Em 1945, sofreu grandes retoques, mas nada recebeu da versão préhistórica, que fôra definitivamente sacrificada.
IX) - BICHO MAU - Deixou de figurar no "Sagarana", porque não tem parentesco profundo com as nove histórias dêste, com as quais se amadrinhara, apenas por pertencer à mesma época e à mesma zona. Seu sentido é outro. Ficou guardada para outro livro de novelas, já concebido, e que, daqui a alguns anos, talvez seja escrito.
X) -CORPOFECHADO - Talvez seja a minha predileta. Manuel Fulô foi o personagem que mais "Humanamente" comigo, e cheguei a desconfiar de que ele pudesse ter uma qualquer espécie de existéncia. Assim, viveu ele para mim mais umas 3 ou 4 histórias, que nao aproveitei no papel, porque não tinham valor de parábolas, não "transcendiam".
XI) - SÃO MARCOS - Demorada para escrever, pois exigia grandes esforços de memória, para a reconstituição de paisagens já muito afundadas. Foi a peça mais trabalhada do livro.
XII) - A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA - História mais séria, de certo modo síntese e chave de tôdas as outras, não falarei sôbre o seu conteúdo. Quanto à forma, representa para mim vitória íntima, pois, desde o coméço do livro, o seu estilo era o que eu procurava descobrir.
Por ora, Conde, aqui está o que eu pude relembrar, acerca do "Sagarana". Se Você quiser, eu poderei contar, mais tarde -, num exemplar da 2ª edição - algumas passagens históricas, ocorridas entre o dia 31 de dezembro de 1937 e a data em que o livro foi entregue à Editora umversal. Serve?
Com o cordial abraço do
Guimarães Rosa.
In: GUIMARÃES ROSA, João. Sagarana. Rio de Janeiro: Record, 1984. (Col. Mestres da Literatura Contemporânea)
Ao sair do elevador, sem despertar suspeitas, com seu paletó de linho escuro e seus óculos de sol, ganhou a rua e a claridade do dia na larga avenida, onde o esperam mais 144 mil homens de igual aspecto ao dele, carregando sobre o corpo paletós de linho e sobre o rosto pares de óculos de sol. Até que uma viatura negra pára na calçada, bem ao seu lado, homens o algemam e o carregam à força para dentro do carro, do qual jamais sairá, pois não o porei para fora dele novamente.
(Retirado do Livro de Espectros, de José Maria Santiago, um escritor que não existe, como se vê. Tomo I, p. 144)
Um novo blog surge.
Eu e o Daniel Fernandes, lá da Federal do Espírito Santo,
montamos um blog para editar as entrevistas do escritor latino-americano Roberto Bolaño.
A Companhia das Letras promete o lançamento da magnus opus do cara para maio. Se chama 2666.
Nas entrevistas, o cara mostra toda a sua erudição, traduzidas nas suas leituras e nas vivências. Fala dos inimigos, etc. Inclusive estou ansioso pra traduzir e postar aquela entrevista em que ele cutuca Garcia Marquez e Vargas Llosa.
Vai te influenciar se eu te disser que o autor mudou minha vida a partir de um livro?
Kâlî é a deusa do terrível, da destruição, da noite e do caos. Ela é a patrona do cólera, dos cemitérios, dos ladrões e dos prostituídos. Ela é representada enfeitada com um colar de cabeças humanas cortadas, seu cinto é feito de uma franja de antebraços humanos. Ela dança sobre o cadáver de Chiva, seu esposo, e sua língua, da qual escorre o sangue do gigante que ela acaba de decapitar, está completamente estendida para fora da boca, porque ela está horrorizada de ter faltado com respeito ao gigante morto. Conta a lenda que sua alegria por ter combatido e vencido os gigantes a levou a um tal grau de exaltação que sua dança fez tremer e oscilar a terra. Chiva acorreu atraído pelo tumulto, mas como sua mulher havia bebido o sangue dos gigantes, sua embriaguez a impediu de vê-lo: ela o derrubou, submeteu-o a seus pés e dançou sobre seu corpo.
Georges Bataille. “Kâlî”, in: Documents, 1968, pp. 180
(a professora pediu a mim e à Carolina um livro infanto-juvenil como parte da nota semestral da matéria de Literatura Infanto-Juvenil. Eis)
Esta é uma história policial. Mas as protagonistas não são policiais. Geraldo é detetive. Emílio é um funcionário público aposentado, amigo de Geraldo. Eles tomam muito café. Até que um assassino surge na cidade. Quem será o assassino, meu Deus?
- Antes de saber quem faria isso, a pergunta é: por quê? - Por que assassinar clientes de restaurantes? - Não, seu tolo! Por que sempre às quintas-feiras! O cara só mata de quinta! Emílio põe mais mostarda no pastel. Emílio adora mostarda. O canto da sua boca denuncia isto
E sempre às quintas-feiras.
- Hoje é quinta-feira, sabe o que acontece toda quinta-feira? - É dia de futebol, não? - Claro que não... hoje é dia de sabermos qual restaurante terá mais um cliente morto!
Emílio e Geraldo, um gordinho desocupado e um solitário homem de meia-idade, tentam descobrir quem anda matando os clientes dos restaurantes em pleno horário de almoço. Isso antes que a imprensa descubra.
Geraldo saca uma lupa do bolso interno do sobretudo para ler melhor. Faz muito calor. O sol entra pela janela da Brasília, rebate na lupa, e o raio de calor atinge o jornal. O jornal começa a abrir. Começa a pegar fogo. Geraldo, friamente, joga o jornal no cesto de lixo da calçada. Sobra apenas o caderno de esportes. Do mês passado.
Geraldo volta a ler o jornal. Lê sobre o placar do campeonato estadual de peteca. Emílio questiona. Ele gosta de questionar, já percebeu? - Que sentido faz ler um jornal do mês passado, Geraldo? - E que sentido faz a vida, Emílio? Ele não esperava por essa. Olhares catatônicos de ambos os lados. - Emílio, você nunca ouviu dizer por aí que as notícias são sempre as mesmas? Que os fatos se repetem? Então, eu compro jornal uma vez por mês. Leio, releio, e economizo o dinheiro do café.
Um livro a quatro mãos. Ou a duas, pois ambos somos destros apenas. Em breve, após eu entregar à professora e receber a nota, vocês lerão o livro mais pretensioso do ano. Só que ele ainda não tem nome.
Cochilei na bilioteca com um livro ao colo, os pés em cima da outra cadeira. Sonhos ruins perturbavam, no meio-sono, no estado de vigília. Tremeu o lado esquerdo do meu corpo, despertei, mas não consegui acordar. Como se um abraço amarrasse meu corpo, uma voz no meu ouvido. Rostos e músicas estranhas me rodeavam, o livro era 'Longa Jornada Noite Adentro'. Acordei, enfim, com uma frase na cabeça, como que decorada, aprendida: 'Na porta da minha alma há dois anjos com cimitarras de fogo'.
Meu primeiro Blogue foi uma união com dois amigos da faculdade, e era o Maria, que anda abandonado, ninguém posta faz mais de ano. O nome fui eu quem deu. Maria é nome de mulher.
Um dos textos que eu postei na época se chama Dorinha, que segue:
Dorinha tinha lá uns putos no bolso. Exausta... Viu uma padaria e entrou pois carecia de comer, por instinto ou para fins de curar ressaca. Da porta sentia o cheiro matinal do pãozinho quente e entrou na fila. Seu corpo ainda recendia ao cheiro do pecado do ontem-à-noite. O baile-funk ainda martelava seus ouvidos, e aí ela se deu conta de que o pãozinho agora era vendido a quilo. Agora não duvidava de que o velho da padaria fizesse ela mastigar pedra pra poder ganhar mais dinheiro. E suas moedas, dos trocos, tão poucas... - Me vê três cigarros soltos e uma caixinha de fósforo. E Fiat Lux. Assim foi, desjejuando cigarros pelo caminho todo até em casa, onde, sem banho e sem pão, dormiu até as seis da tarde com martelos na cabeça.
Mas do que mais sinto falta nesse blogue é da companhia dos caras, o Roque e o Pato, grandes poetas, caras inteligentes, admiro-os muito, e caso você queira, pode acessar seus blogues clicando no nome dos caras.
Eles escrevem muito melhor que eu, eles devem sentir mais, e com certeza já leram muito mais, pra que pudessem atingir tanta fineza no escrever.
Separei para vocês duas entradas do meu dicionário:
Alefabeto – sm. 1. pessoa que sofre de Alefabetismo, ou Literacia (q.v. Literacia). 2. Diz-se da pessoa que esquece com frequência o nome das coisas, e que se comunica valendo-se excessivamente dos termos "negócio" e "coisa".
Literacia – sf. 1. primeiro estágio do Mal de Aspargos, onde se dá o esquecimento da denominação de objetos e sentimentos. 2. perda da memória linguística, agramaticalismo progressivo.
rolou uma identificação?
[abaixo, um nanquim sobre papel + Photoshop de minha autoria]