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quarta-feira, 11 de julho de 2012

Borges e o romance


Mesmo assim, apesar de sua universalidade formal e da vertiginosa amplitude de seu leque de alusões, a estrutura da arte de Borges tem graves lacunas. Somente uma vez, no conto “Emma Zunz”, Borges criou uma mulher plausível. Em toda a obra restante, as mulheres são os objetos indistintos de fantasias ou recordações masculinas. Mesmo entre os homens, as linhas de força imaginativa numa ficção de Borges são extremamente simplificadas. (…) Quando aparece uma terceira pessoa, será quase invariavelmente, obliquamente, a alusão a uma presença, uma lembrança ou um rápido vislumbre instável na retina. O espaço de ação onde se move uma figura de Borges é mítico, nunca social. Quando se introduz um local, uma posição ou uma circunstância histórica, aparece em toques soltos, exatamente como num sonho. (…) São essas lacunas, essas intensas especializações na consciência, penso eu, que explicam as desconfianças de Borges em relação ao romance. Ele volta ao tema com frequência. Afirma que um autor obrigado pela visão fraca a compor mentalmente e, por assim dizer, de um só impulso, deve se restringir a narrativas muito breves. E é verdade que as primeiras “Ficciones” importantes se seguem ao grave acidente que Borges sofreu em dezembro de 1938. Ele também julga que o romance, como o poema épico que o precedeu, é uma forma transitória: “O romance é uma forma que pode passar, que certamente passará, mas não creio que o conto passará […] Ele é muito mais antigo”. É o contador de histórias na estrada, o skald, o narrador dos pampas, homens cuja cegueira é muitas vezes uma declaração do brilho e da riqueza de vida que viveram, que encarnam a noção de escritor de Borges. Homero é invocado amiúde como ícone protetor. Claro. Mas é da mesma maneira provável que o romance represente precisamente as principais dimensões faltantes em Borges. A presença feminina bem construída, as relações das mulheres com os homens fazem parte da essência da ficção plena. (…) Há muito de simples engenharia num romance.

STEINER, George. “Tigres no espelho” in: Tigres no espelho e outros textos da revista New Yorker. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Biblioteca Azul, 2012. pp. 213-214.



quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Encontro casual



A condição mortal implica sempre uma divisão, um dilaceramento e um encadeamento de eventos trágicos. Essa duplicidade aparece na sua versão mais nítida no caso de Édipo: inocente e culpado; sábio e louco; poderoso e miserável. Nenhum de seus atos foi intencional, mas ele é o culpado de todos. (...) A condição de Édipo é extremamente significativa: a desgraça primordial do homem é ter nascido; sua culpa fundamental é por existir. A partir daí, como administrar o destino?

Franklin Leopoldo e Silva. Felicidade: dos filósofos pré-socráticos aos contemporâneos. São Paulo: Editora Claridade, 2006. p. 17.


No primeiro volume de Parerga und Paralipomena reli que todos os fatos que podem ocorrer a um homem, desde o instante de seu nascimento até o de sua morte, foram prefixados por ele. Assim, toda negligência é deliberada, todo casual encontro, uma hora marcada, toda humilhação, uma penitência, todo fracasso, uma misteriosa vitória, toda morte, um suicídio. Não há consolo mais hábil que o pensamento de que escolhemos nossas desgraças; essa teleologia individual nos revela uma ordem secreta e prodigiosamente nos confunde com a divindade.

Jorge Luis Borges. "Deutsches Requiem". In: O Aleph. São Paulo: Editora Globo, 1999. p. 48.



sexta-feira, 11 de março de 2011

A Biblioteca de Babel

(...)

Não me parece inverossímil que em alguma estante do universo haja um livro total; rogo aos deuses ignorados que um homem - só um, ainda que seja, há milhares de anos! - haja o examinado e lido. Se a honra e a sabedoria e a felicidade não são para mim, que sejam para outros. Que o céu exista, ainda que meu lugar seja o inferno. Que eu seja ultrajado e aniquilado, mas que em um instante, em um ser, Tu, enorme Biblioteca, se justifique.


(...)

As epidemias, as discórdias heréticas, as peregrinações que inevitavelmente se degeneram em bandoleirismo, dizimaram a população. Creio ter mencionado os suicídios, a cada ano mais frequentes. Talvez a velhice e o temor me enganem, mas suspeito que a espécie humana - a única - está por extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvil, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.



BORGES, Jorge Luis. "La Biblioteca de Babel" in: Ficciones. Buenos Aires: Emecé Editores, 2005. p. 105-120 (tradução nossa)

"Passage Choiseul" (1990), Erik Desmazières.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Sobre a Glória

Não há exercício intelectual que não resulte em fim inútil. Uma doutrina é no início uma descrição verossímil do universo; passam-se os anos e é um simples capítulo – quando não um parágrafo ou um nome – da história da filosofia. Na literatura, essa caducidade final é ainda mais notória. O Quixote – disse-me Menard – foi antes de tudo um livro agradável; agora é uma ocasião de brindes patrióticos, de soberba gramatical, de obscenas edições de luxo. A glória é uma incompreensão e talvez a pior.

 BORGES, Jorge Luis. "Pierre Menard, autor del Quijote" in: Ficciones. Buenos Aires: La Nación, 1995. p. 68. (grifo nosso, tradução nossa).

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Bastão de Simetria


Os fenícios não eram conhecidos por serem grandes guerreiros, na verdade eram melhores artesãos que guerreiros. Muita coisa leva a crer que os fenícios legaram à história dos povos e dos artefatos o Bastão de Simetria.
     Legado aos gregos ou aos macedônios, talvez com passagem pela ibéria, com certa passagem pelo oriente, com registros no sânscrito, o certo é que o Bastão de Simetria pertence, em análise última, à toda humanidade, ou, conforme as interpretações dos médio-orientais, a humanidade pertença aos artefatos mágicos).
     O Bastão é uma peça de madeira maciça, de tamanho e diâmetro em proporção áurea e de cor avermelhada. O atributo deste artefato é não permitir os movimentos do mais hábil manejador, e de igual maneira não permite o manejo do inábil.
     O guerreiro tem sua vontade anulada e seus gestos não fazem efeito, a peça é conduzida somente nas direções percebidas pelo universo, pela natureza ou pelo próprio bastão. De fato, a peça é quem conduz o manejador, em golpes de sacrifício, em leves acrobacias, sempre de maneira inédita e inequívoca. As mãos do soldado que a conduz são conduzidas, tendo este que adaptar seu corpo, seus gostos e preferências, sua mão de destreza aos movimentos orientados assim que o objeto é tocado, desencadeando seus movimentos lúcidos e simétricos.
     Dizem que estes movimentos já estão previstos em algum lugar, e que o Bastão de Simetria, perfeito na sua performance, reproduz o ordenamento divino da natureza e do cosmos, o que o tornou um oráculo para alguns povos do Mediterrâneo. Já foi considerado como umas das únicas maneiras de compreender A Divina Totalidade (o Tao dos chineses), e observá-lo ou tocá-lo poderia servir como cura a qualquer convalescência.
     É fato notório que alguns reis já tentaram utilizar tal artefato maravilhoso nas suas mais tenebrosas guerras, na certeza de saírem sempre vencedores, bastando para tanto ter a posse de um objeto que previsse a marcha da imensidão sideral. O que não perceberam de imediato foi a inutilidade do Bastão em ferir o adversário nas guerras, pois seus desígnios não previam qualquer movimento alheio aos seus princípios irracionais e secretos, o que na maioria das vezes não previa o ato violento. Logo os povos notaram que, em vez da guerra, o Bastão de Simetria servia muito mais para a dança, e passaram a incluí-lo apenas nos seus rituais do êxtase.


[Retirado de Fabra, António. "Artefactos blancos de la antiguidad". In: Encyclopaedia de los Artefactos y de la Magia. Madri: Mercador, 1912. p.82 - Tradução nossa]

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Estudo de Filologia

Possivelmente a decifração do que muitos entendem como o mistério bíblico (arcana para alguns, cabala para outros), subjaz na leitura das linhas-viúvas do códice original editado por Gutenberg no século XV.

A estrutura cônscia das linhas finais da página no codex original da Escritura pode ter uma relação direta com seu significado mais oculto, aquele buscado por judeus & católicos, escritores & teólogos. & o fato de os editores modernos evitarem tal recurso nos livros comerciais escamoteia um interesse maligno por esconder a verdade da massa. Isto nos remonta, como é de se supor, à Maçonaria, à Opus Dei, ao Dan Brown e a Dom Paulo Evaristo Arns.

Corrobora com esta leitura o item f do levantamento feito por Jorge Luís Borges do espólio de Pierre Menard (Ficciones, 1941).

Mas estas revelações não são dignas de veicularem num blog. A pós-modernidade tirou a credibilidade da informação, e com isto nossa capacidade de discernir a verdade da mentira, posto que a própria noção de verdade se perdeu, destoante do espírito do objeto de nossa análise, o incunábulo do século XV.

Se alguém encontrar a edição de Gutenberg num sebo por aí, me avise. Preciso verificar a informação na fonte, in loco.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O Xadrez

No terceiro parágrafo da página 17, na "Introdução" de seu Tratado sobre el pensamiento y las formas del ajedrez, Julio Pompeo Castelán adverte que o xadrez é um "jogo de embate entre duas mentes em que, em meio a quaisquer circunstâncias tópico-temporais, não há-de entrar nenhum elemento do acaso em seu resultado final".

Não entram elementos do acaso: o bastante para me fazer desgostar do xadrez.





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sexta-feira, 3 de julho de 2009

Novíssimo Lexiglossário Propedêutico do Lucas


Separei para vocês duas entradas do meu dicionário:




Alefabetosm. 1. pessoa que sofre de Alefabetismo, ou Literacia (q.v. Literacia). 2. Diz-se da pessoa que esquece com frequência o nome das coisas, e que se comunica valendo-se excessivamente dos termos "negócio" e "coisa".



Literaciasf. 1. primeiro estágio do Mal de Aspargos, onde se dá o esquecimento da denominação de objetos e sentimentos. 2. perda da memória linguística, agramaticalismo progressivo.


rolou uma identificação?



[abaixo, um nanquim sobre papel + Photoshop de minha autoria]